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Mc 6,1-6

Naquele tempo:
1Jesus foi a Nazaré, sua terra,
e seus discípulos o acompanharam.
2Quando chegou o sábado, começou a ensinar na sinagoga.
Muitos que o escutavam ficavam admirados e diziam:
'De onde recebeu ele tudo isto?
Como conseguiu tanta sabedoria?
E esses grandes milagres
que são realizados por suas mãos?
3Este homem não é o carpinteiro, filho de Maria
e irmão de Tiago, de Joset, de Judas e de Simão?
Suas irmãs não moram aqui conosco?'
E ficaram escandalizados por causa dele.
4Jesus lhes dizia: 'Um profeta só não é estimado
em sua pátria, entre seus parentes e familiares'.
5E ali não pôde fazer milagre algum.
Apenas curou alguns doentes, impondo-lhes as mãos.
6E admirou-se com a falta de fé deles.
Jesus percorria os povoados das redondezas, ensinando.


08 de julho - 14º Domingo do Tempo Comum

Meus irmãos e Minhas irmãs,

Neste domingo vamos refletir sobre a sorte do profeta: a REJEIÇÃO. Tema muito atual no continente americano e, particularmente, no nosso Brasil que clama por justiça e por dignidade social. Estamos observando várias rejeições a pregação do Evangelho e muitas perseguições aos ministros ordenados. Pessoas de bem, que largaram pai, mãe, irmão, largaram tudo para trás para anunciar o Evangelho, particularmente, quando esta pregação incomoda e incomoda muito.

A primeira Leitura(Ezequiel 2,2-5) nos ensina que Ezequiel é enviado a um povo “duro de cerviz”, mesmo enquanto vivia no exílio(Ez 2,2-5). Como no passado Jeremias, Ezequiel lembra a Israel seu passado rebelde. O povo hebreu é um povo que se revolta contra Deus e mata seus profetas, inclusive o Enviado, Jesus de Nazaré. O profeta deve marcar presença, por isso o povo deve saber que o porta-voz de Deus esteve no meio dele. Daí a missão do profeta: o profeta tem que comer a palavra de Deus, que é doce como mel, mas causa amargura no profeta. Aceito ou rejeitado, o profeta tem que proclamar, oportuna ou inoportunamente o Reino de Deus. Profeta não é uma missão de diplomata. Pelo contrário, há um momento em que a palavra deve ser dita com toda a clareza: é o tempo, é o momento do profeta. Pelo sacramento do Batismo, fomos ungidos como profetas, à imagem de Cristo. Cada um de nós tem a sua história de vocação profética: de muitas formas Deus entra na nossa vida, desafia-nos para a missão, pede uma resposta positiva à sua proposta. O profeta é o homem que vive de olhos postos em Deus e de olhos postos no mundo (numa mão a Bíblia, na outra nas notícias do cotidiano). Vivendo em comunhão com Deus e intuindo o projeto que Ele tem para o mundo, e confrontando esse projeto com a realidade humana, o profeta percebe a distância que vai do sonho de Deus à realidade dos homens. É aí que ele intervém, em nome de Deus, para denunciar, para avisar, para corrigir. Devemos nos empenhar para sermos pessoas, simultaneamente em comunhão com Deus e atentas às realidades que desfeiam o nosso mundo.

O que é decisivo não são as qualidades extraordinárias do profeta, mas o chamamento de Deus e a missão que Deus lhe confia. A indignidade e a limitação, típicas do “filho do homem”, não são impeditivas para a missão: a eleição divina dá ao profeta autoridade, apesar dos seus limites bem humanos. Em terceiro lugar, temos a definição da missão. Ezequiel, o profeta, é enviado a um Povo rebelde, que continuamente se afasta dos caminhos de Deus. A sua missão é apresentar a esse Povo as propostas de Deus. O mais importante não é que as palavras do profeta sejam ou não escutadas; o que é importante é que o profeta seja, no meio do Povo, a voz que indica os caminhos de Deus (vers. 4-5).

A vida de Ezequiel realizou integralmente o projeto de Deus. Chamado por Deus, ele foi, no meio do Povo exilado na Babilônia, uma voz humana através da qual Deus apresentou ao seu Povo o caminho para a vida plena e verdadeira. É essa a missão do profeta.

No Batismo, fomos ungidos como profetas, à imagem de Cristo. Cada um de nós tem a sua história de vocação profética: de muitas formas Deus entra na nossa vida, desafia-nos para a missão, pede uma resposta positiva à sua proposta. O profeta é o homem que vive de olhos postos em Deus e de olhos postos no mundo (numa mão a Bíblia, na outra o jornal diário). Vivendo em comunhão com Deus e intuindo o projeto que Ele tem para o mundo, e confrontando esse projeto com a realidade humana, o profeta percebe a distância que vai do sonho de Deus à realidade dos homens. É aí que ele intervém, em nome de Deus, para denunciar, para avisar, para corrigir.

Meus irmãos,

O Evangelho de hoje(Mc 6,1-6) nos ensina que o povo de Nazaré não soube enxergar em Jesus o Filho de Deus. Não tiveram fé para enxergar com os olhos da fé e ouvir com os ouvidos da esperança, e entender com o coração repleto do amor.

Nazaré, cidade em que Jesus se criou, era uma cidade sem expressão no Antigo Testamento. Talvez uma vila sacerdotal, uma cidade ignorada por todos os homens do tempo de Jesus. Cidade pobre, lugarejo onde se cultivava trigo, linho, vinhedos, olivais e árvores frutíferas, como a figueira. Em Nazaré José, pai votivo de Jesus, era carpinteiro e ensinou o seu ofício a Jesus.

Jesus entra na sinagoga no dia de sábado. O povo hebreu reuniu-se na sua igreja, a sinagoga, sobretudo aos sábados. Depois de uma oração, lia-se um trecho, ou em torno da Lei ou em torno dos Profetas. Depois desta leitura, alguém, com mais de 30 anos, fazia um comentário e, por fim, era dada a bênção de Aarão (Cf. Num 4,24-26). A sinagoga de Nazaré era muito familiar a Jesus, porque a freqüentara desde criança. E todos aí o conheciam. Mas até então, Jesus não tinha a idade exigida para explicar os Profetas. Agora, passando os 30 anos, aceitou o pedido da comunidade que, ao ouvi-lo, espantou-se com sua sabedoria e com a interpretação que dava aos textos sagrados. Como era possível tanto conhecimento, se não fizera nenhum curso especializado com os rabinos e os escribas? Que estalo acontecera?

A primeira reação dos nazarenos deveria ser de reconhecer em Jesus um enviado especial de Deus, como o povo eleito teve Isaías, Jeremias, Moisés e outros grandes homens repletos da ação de Deus. Esta atitude levaria os hebreus a ouvirem Jesus e levar em consideração o seu ensinamento. Uma segunda atitude seria ver em Jesus um momento em que estava possuído pelo demônio. E, por fim, uma terceira atitude, olhando apenas o lado humano, o lado familiar, escandalizando-se como Jesus sendo profeta. E, infelizmente, os nazarenos preferiram rejeitar Jesus. O que houve?  Foi o escândalo. Os Nazarenos não acreditaram na mensagem de Jesus; as palavras de Jesus, em vez de lhes abrir o coração e a mente, os fixou na incredulidade. Assim, muitas vezes vemos repetida a palavra de Jesus no Evangelho de hoje: “Um profeta só não é estimado em sua pátria, entre seus parentes e familiares”(Cf. Mc 6,4).

Apesar da incompreensão dos seus concidadãos, Jesus continuou, em absoluta fidelidade aos planos do Pai, a dar testemunho no meio dos homens do Reino de Deus. Rejeitado em sua natalícia Nazaré, Ele foi, como diz a perícope deste domingo, a percorrer as aldeias dos arredores, ensinando a dinâmica do Reino. O testemunho que Deus nos chama a dar cumpre-se, muitas vezes, no meio das incompreensões e oposições… Frequentemente, os discípulos de Jesus sentem-se desanimados e frustrados porque o seu testemunho não é entendido nem acolhido, e, não raras vezes, desacreditados ou mesmo perseguidos e martirizados.

Um dos elementos questionantes no episódio que o Evangelho deste domingo nos propõe é a atitude de fechamento a Deus e aos seus desafios, assumida pelos habitantes de Nazaré. Comodamente instalados nas suas certezas e preconceitos, eles decidiram que sabiam tudo sobre Deus e que Deus não podia estar no humilde carpinteiro que eles conheciam bem. Esperavam um Deus forte e majestoso, que se havia de impor de forma estrondosa, e assombrar os inimigos com a sua força; e Jesus não se encaixava nesse perfil. Preferiram renunciar a Deus, do que à imagem que d’Ele tinham construído. Há aqui um convite a não nos fecharmos nos nossos preconceitos e esquemas mentais bem definidos e arrumados, e a purificarmos continuamente, em diálogo com os irmãos que partilham a mesma fé, na escuta da Palavra revelada e na oração, a nossa perspectiva acerca de Deus. Para os habitantes de Nazaré Jesus era apenas “o carpinteiro” da terra, que nunca tinha estudado com grandes mestres e que tinha uma família conhecida de todos, que não se distinguia em nada das outras famílias que habitavam na vila; por isso, não estavam dispostos a conceder que esse Jesus – perfeitamente conhecido, julgado e catalogado – lhes trouxesse qualquer coisa de novo e de diferente… Isto deve fazer-nos pensar nos preconceitos com que, por vezes, abordamos os nossos irmãos, os julgamos, os catalogamos e etiquetamos.

Meus irmãos,

A experiência de Paulo, relatada na segunda leitura(2Cor 12,7-10), vai na mesma direção. Paulo descreve as dificuldades de seu apostolado, gloriando-se contra aqueles que se gloriam na observância judaica e outros pretextos para destruir a obra da evangelização que ele está realizando. Pede a seus leitores suportarem um pouco de loucura de sua parte: seu próprio elogio. Mas que elogio! O currículo de Paulo não está cheio de diplomas, concursos e obras publicadas, mas de loucuras mesmo. Gloria-se de sua fraqueza, de sua prisão, de suas tentações, de seu remorso do passado de perseguidor de cristãos, de um “anjo de Satanás!”, uma provação semelhante à de Jô. O que importa é a releitura e o sentido que Paulo dá: impedir que se encha de soberba. O evangelho vale mais que ouro, mas o apóstolo é apenas um recipiente de barro. Se ele produz efeito, é o espírito de Deus que o produz. Para o apóstolo, basta a graça, isto é, que Deus realize a sua redenção, sem depender de nossas qualidades humanas. Em nossa fraqueza é que seu poder se manifesta. Jesus não pode fazer milagres em Nazaré: fraqueza também. Mas Deus realizou seu plano na suprema “fraqueza” de Cristo: sua morte na Cruz. Junto a ele há lugar para os “fracos”, nele, tornam-se fortes.

O que aconteceu com São Paulo diz-nos muito sobre os métodos de Deus. Para vir ao encontro dos homens e para lhes apresentar a sua proposta de salvação, Deus não utiliza métodos espetaculares, poderosos, majestosos, midiáticos, que se impõem de forma avassaladora e que deixam uma marca de estupefacção e de espanto na memória dos povos; mas, quase sempre, Deus utiliza a fraqueza, a debilidade, a fragilidade, a simplicidade para nos dar a conhecer os seus caminhos. Nós, homens e mulheres do século XXI, deixamo-nos, facilmente, impressionar pelos grandes gestos, pelos cenários magnificentes, pelas roupagens suntuosas, por tudo o que aparece envolvido num halo cintilante de riqueza, de prestígio social, de poder, de beleza; e, por outro lado, temos mais dificuldade em reparar naquilo que se apresenta pobre, humilde, simples, frágil, débil. A Palavra de Deus que hoje nos é proposta garante-nos que é na fraqueza que se revela a força de Deus. Precisamos de aprender a ver o mundo, os homens e as coisas com os olhos de Deus e a descobrir esse Deus que, na debilidade, na simplicidade, na pobreza, na fragilidade, na pequenez, que vem ao nosso encontro e nos indica os caminhos da vida.

A consciência de que as suas qualidades e defeitos não são determinantes para o sucesso da missão, pois o que é importante é a graça de Deus, deve levar o “profeta” a despir-se de qualquer sentimento de orgulho ou de auto-suficiência. O “profeta” deve sentir-se, apenas, um instrumento humano, frágil, débil e limitado, através do qual a força e a graça de Deus agem no mundo. Quando o “profeta” tem consciência desta realidade, percebe como são despropositadas e sem sentido quaisquer atitudes de vedetismo ou de busca de protagonismo, no cumprimento da missão. A missão do “profeta” não é atrair sobre si próprio as luzes da ribalta, as câmaras da televisão ou o olhar das multidões; a missão do “profeta” é servir de veículo humano à proposta libertadora de Deus para os homens.

Como pano de fundo do nosso texto, está a polémica de Paulo com alguns cristãos que não o aceitavam. Ao longo de todo o seu percurso missionário, Paulo teve de lidar frequentemente com a incompreensão; e, muitas vezes, essa incompreensão veio até dos próprios irmãos na fé e dos membros dessas comunidades a quem Paulo tinha levado, com muito esforço, o anúncio libertador de Jesus. No entanto, a incompreensão nunca abalou a decisão e o entusiasmo de Paulo no anúncio da Boa Nova de Jesus. Ele sentia que Deus o tinha chamado a uma missão e que era preciso levar essa missão até ao fim, doesse a quem doesse. Frequentemente, temos de lidar com realidades semelhantes. Todos experimentámos já momentos de incompreensão e de oposição (que, muitas vezes, vêm do interior da nossa própria comunidade e que, por isso, magoam mais). É nessas alturas que o exemplo de Paulo deve brilhar diante dos nossos olhos e ajudar-nos a vencer o desânimo e a tentação de desistir.

Neste texto de Paulo (como, aliás, em quase todos os textos do apóstolo), transparece a atitude de vida de um cristão para quem Cristo é, verdadeiramente, o centro da própria existência e que só vive em função de Cristo. Nada mais lhe interessa senão anunciar as propostas de Cristo e dar testemunho da graça salvadora de Cristo.

Irmãos,

Hoje a Santa Igreja deve ser o povo de profetas que denuncia os desvios da mensagem do Evangelho e protesta em nome dos mais fracos e injustiçados, lutando por mais justiça social, por mais inclusão de emprego, de moradia, de comida. A voz profética deve também ser ouvida dentro da Igreja para uma vivência cada vez mais autenticamente evangélica. Amém!

Escrito por: Pe Wagner Augusto Portugal