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Evangelho - Mt 5,38-48

Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos:
38Vós ouvistes o que foi dito:
'Olho por olho e dente por dente!'
39Eu, porém, vos digo:
Não enfrenteis quem é malvado!
Pelo contrário, se alguém te dá um tapa na face
direita, oferece-lhe também a esquerda!
40Se alguém quiser abrir um processo
para tomar a tua túnica, dá-lhe também o manto!
41Se alguém te forçar a andar um quilômetro,
caminha dois com ele!
42Dá a quem te pedir
e não vires as costas a quem te pede emprestado.
43Vós ouvistes o que foi dito:
'Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo!'
44Eu, porém, vos digo: Amai os vossos inimigos
e rezai por aqueles que vos perseguem!
45Assim, vos tornareis filhos
do vosso Pai que está nos céus,
porque ele faz nascer o sol sobre maus e bons,
e faz cair a chuva sobre justos e injustos.
46Porque, se amais somente aqueles que vos amam,
que recompensa tereis?
Os cobradores de impostos não fazem a mesma coisa?
47E se saudais somente os vossos irmãos,
o que fazeis de extraordinário?
Os pagãos não fazem a mesma coisa?
48Portanto, sede perfeitos
como o vosso Pai celeste é perfeito.'


19 de Fevereiro - VII Domingo do tempo comum - Ano A

A liturgia deste domingo nos apresenta a perfeição, lembrando do chamado da Igreja: Sede perfeitos como vosso Pai. Para chegarmos a ser santos como Deus é santo, todos os batizados são convidados a amar como Deus ama. Esta forma de amar consiste, essencialmente, em fazer o bem indistintamente a todos. Isso exige, primeiramente, a prática da mansidão: “Ouvistes o que foi dito: ‘Olho por olho e dente por dente’. Eu porém, vos digo: não resistais ao homem mau; antes, àquele que te fere na face direita, oferece-lhe, também a esquerda”(cf. Mt 5,38-39).

E Jesus termina esta parte, dizendo: “Dá ao que te pede e não voltes as costas ao que te pede emprestado”(cf. Mt 5,42). A liturgia do sétimo Domingo do Tempo Comum convida-nos à santidade, à perfeição. Sugere que o “caminho cristão” é um caminho nunca acabado, que exige de cada homem ou mulher, em cada dia, um compromisso sério e radical (feito de gestos concretos de amor e de partilha) com a dinâmica do “Reino”. Somos, assim, convidados a percorrer o nosso caminho de olhos postos nesse Deus santo que nos espera no final da viagem.

Caros irmãos,

A primeira leitura(Lv 19,1-2.17-18) nos apresenta um apelo veemente à santidade: viver na comunhão com o Deus santo, exige o ser santo. Na perspectiva do autor do nosso texto, a santidade passa também pelo amor ao próximo. Todos nós sabemos que o Livro do Levítico trata de questões preferencialmente relacionadas com o culto, que era incumbência dos sacerdotes, considerados membros da tribo de Levi. A literatura levítica apresenta-se como um discurso de Jahwéh, no qual este explica ao seu Povo o que deve fazer para viver sempre em comunhão com Deus.

Apresenta um conjunto de leis, de preceitos, de ritos, quase sempre relacionados com o culto, que o Povo deve praticar, para viver como Povo de Deus. Fundamentalmente, o Levítico preocupa-se em instalar na consciência dos fiéis que a comunhão com o Deus vivo é a verdadeira vocação do homem. No sétimo domingo do tempo comum o texto que nos é proposto pertence à quarta parte do Livro do Levítico (cf. Lv 17-26), conhecida como “lei da santidade”. O nome provém do refrão insistentemente repetido: “sede santos porque Eu, o vosso Deus, sou santo” (Lv 19,2; 20,7; 21,8; 22,16…).

Na teologia de Israel, Jahwéh é o Deus “santo”, quer dizer, transcendente, incomparável, inefável, inatingível, perfeito. Este Deus santo elegeu Israel, chamou-o, distinguiu-o entre todos os povos da terra, fez aliança com Ele. Introduzido na comunhão com Deus, Israel participa da santidade de Deus. É, portanto, um Povo à parte, separado dos outros, cuja vocação consiste na comunhão com o Deus santo.

Esta “eleição” conduz, necessariamente, à exigência de santidade: o Povo tem de viver de acordo com determinadas regras para manter esta comunhão de vida com Deus. Daí que o Levítico apresente as leis que devem orientar a vida do Povo, a fim de que ele possa manter-se na órbita do Deus santo e testemunhar a santidade de Deus no mundo. Neste “código da santidade”, encontramos os temas mais diversos. Uma parte significativa das leis aqui propostas dizem respeito à vida cultual (cf. Lv 17-18; 21-22); mas outras dizem respeito à vida social (cf. Lv 19).

A primeira leitura de hoje começa com o refrão posto na boca de Deus: “sede santos porque Eu, o vosso Deus, sou santo” (vers. 2). A comunhão com o Deus santo exige que o Povo cultive, por sua vez, a santidade. Ora, ser santo significa o quê? Na “lei da santidade”, temos disposições que dizem respeito às mais variadas dimensões da vida; mas neste caso, em concreto, liga-se a questão da santidade com o comportamento “justo” para com os irmãos, membros da comunidade do Povo de Deus.

Os membros do Povo santo são convidados a arrancar as raízes do mal que crescem no íntimo do homem, de forma a que nos seus corações não haja ódio, nem rancor contra o irmão (vers. 17-18). A expressão final “amarás o teu próximo como a ti mesmo” (vers. 18) resume o comportamento que a santidade exige, quanto à vida fraterna. É, na opinião do rabbi Aqiba (que viveu entre 50 e 135 d.C.), “um princípio fundamental da Lei”. Jesus retomará esta afirmação (combinada com a de Dt 6,5) para exprimir o essencial da Lei de Moisés (cf. Mt 22,37-39).

“Sede santos porque Eu, o vosso Deus, sou santo”. Porque é que o convite à santidade soa como algo de estranho para os homens de hoje? Porque uma certa mentalidade contemporânea vê os santos como extraterrestres, seres estranhos que pairam um pouco acima das nuvens sem se misturar com os outros seus irmãos e que passam ao lado dos prazeres da vida, ocupados em conquistar o céu a golpes de renúncia, de sacrifício e de longos trabalhos ascéticos. No entanto, a santidade não é uma anormalidade, mas uma exigência da comunhão com Deus. É o “estado normal” de quem se identifica com Cristo, assume a sua filiação divina e pretende caminhar ao encontro da vida plena, do Homem Novo.

Como a primeira leitura deixa claro, ser santo não significa viver de olhos voltados para Deus esquecendo os homens; mas a santidade implica um real compromisso com o mundo. Passa pela construção de uma vida de verdadeira relação com os irmãos; e isso implica o banimento de qualquer tipo de agressividade, de vingança, de rancor; implica uma preocupação real com a felicidade e a realização do outro (“corrigirás o teu próximo”); implica amar o outro como a si mesmo.  Para que a santidade não seja uma miragem, temos de ter o cuidado de viver num contínuo processo de conversão, que elimine do nosso coração as raízes do mal, responsáveis pelo egoísmo, pelo ódio, pela injustiça, pela exploração.

Prezados fiéis,

No Evangelho(Mt 5,38-48), Jesus continua a propor aos discípulos, de forma muito concreta, a sua Lei da santidade (no contexto do “sermão da montanha”). Hoje, Ele pede aos seus que aceitem inverter a lógica da violência e do ódio, pois esse “caminho” só gera egoísmo, sofrimento e morte; e pede-lhes, também, o amor que não marginaliza nem discrimina ninguém (nem mesmo os inimigos). É nesse caminho de santidade que se constrói o “Reino”.

É claro que Jesus não ensina seus filhos e filhas a serem trouxas. A pessoa pode defender-se e exigir que se faça justiça. Mas, em todo esse processo ela é chamada a praticar a mansidão, a não usar de violência e a buscar o bem da pessoa que a prejudicou. Jesus convida à generosidade.

Jesus continua: “Ouvistes o que foi dito: ‘Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo’. Eu, porém, vos digo: Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem; deste modo vos tornarei filhos de vosso Pai que está nos céus, porque ele faz nascer o seu sol igualmente sobre maus e bons e cair a chuva sobre justos e injustos” (Cf. Mt 5,44-45).

Trata-se de amar a todos; também os inimigos. Como isso é difícil ou até parece ser impossível! Amar, querer o bem ao próximo, ao que nos faz o bem é mais fácil e até prazeroso. Amar os inimigos exige uma dupla atitude: perdoar e fazer o bem a ele. Aliás, o perdão é o primeiro bem que lhe fazemos. É dar de novo, dar muitas vezes. Dar o quê? O amor. Amar, aqui, não é um mero sentimento de gostar, mas querer o bem e fazer o bem a ele. Deus não exige que gostemos dos inimigos. Isso não depende da gente. Gostar é um sentimento que nem sempre está sob o domínio da vontade. Mas podemos sempre querer e fazer bem ao próximo, inclusive aos inimigos.

Prezados irmãos,

Nesta semana, na leitura do Evangelho continuamos com o “discurso da montanha” e com a apresentação da “nova Lei” que deve conduzir a caminhada cristã.
Vimos, no passado domingo, como São Mateus estava preocupado em definir, para os cristãos vindos do judaísmo, a relação entre Cristo e a Lei de Moisés. Os cristãos continuam obrigados a cumprir a Lei de Moisés? Jesus não aboliu a Lei antiga? O que há de verdadeiramente novo na mensagem de Jesus? A perspectiva de Mateus é que Jesus não veio abolir a Lei, mas levá-la à plenitude. No entanto, considera Mateus, a Lei tornou-se um conjunto de prescrições que são cumpridas mecanicamente, dentro de uma lógica casuística que, tantas vezes, não tem nada a ver com o coração e com a vida.

É preciso que a Lei deixe de ser um conjunto de preceitos externos a cumprir para conquistar a salvação, para se tornar expressão de um verdadeiro compromisso com Deus e com o “Reino”. Vimos como São Mateus apresentava um conjunto de exemplos, destinados a tornar mais clara e concreta esta perspectiva. Dos seis exemplos apresentados por Mateus, quatro apareceram no Evangelho do passado domingo; para hoje, ficam os dois últimos exemplos dessa lista.

O primeiro exemplo que o Evangelho de hoje nos propõe (o quinto da lista) refere-se à chamada “lei de talião” (vers. 38-42). A “lei de talião”, consagrada na conhecida fórmula “olho por olho, dente por dente”, aparece em vários textos vétero-testamentários (cf. Ex 21,24; Lv 24,20; Dt 19,21). Em si, é uma lei razoável, destinada a evitar as vinganças excessivas, brutais, indiscriminadas.

Jesus, no entanto, não se dá por satisfeito com uma lei que apenas limita os excessos na vingança, e propõe uma lógica inteiramente nova. Na sua perspectiva, não chega manter a vingança dentro de fronteiras razoáveis, mas é preciso acabar com a espiral de violência de uma vez por todas; para isso, Jesus propõe que os membros do “Reino” sejam capazes de interromper o curso da violência, assumindo uma atitude pacífica, de não resistência, de não resposta às provocações.

Para tornar mais clara a sua proposta, Jesus apresenta quatro casos concretos. No primeiro (vers. 39), pede que não se responda com a mesma moeda àquele que nos agride fisicamente, mas que se desarme o violento oferecendo a outra face; no segundo (vers. 40), recomenda que, diante de uma exigência exorbitante (entrega da túnica, isto é, da peça de roupa mais fundamental, que não era tirada senão àquele que era vendido como escravo – cf. Gn 37,23), se responda entregando ainda mais (a entrega da capa, vestimenta que servia para proteger dos rigores da noite e que, por isso, a própria Lei não admitia que fosse retida, senão por um dia – cf. Ex 22,25; Dt 24,12-13); no terceiro (vers. 41), exige que se acompanhe por duas milhas aquele que quer forçar-nos a acompanhá-lo por uma (provavelmente, haverá aqui uma referência a uma prática frequente das patrulhas romanas que, desorientadas, requisitavam os habitantes da Palestina para que as guiassem durante algum tempo); no quarto (vers. 42), Jesus recomenda que não se ignore, nem se deixe sem atender aquele que pede dinheiro emprestado. Este conjunto de exemplos concretos aponta numa única direção: os membros da comunidade de Jesus devem manifestar a todos um amor sem medida, que vai muito além daquilo que é humanamente exigido. Dessa forma, eles inauguram uma nova era de relações entre os homens.

O segundo exemplo que o Evangelho de hoje nos apresenta (o sexto da lista) refere-se ao amor aos inimigos (vers. 43-48). Jesus afirma que a Lei antiga recomendava: “ama o teu próximo e odeia o teu inimigo”… No entanto, embora haja na Lei antiga uma referência ao amor ao próximo (cf. Lv 19,18), não se refere, em lado nenhum, o ódio aos inimigos (o verbo “odiar” pode significar, nas línguas semitas, simplesmente “não amar”; no entanto, certos grupos contemporâneos de Jesus defendiam o ódio aos inimigos: a seita essênia de Qûmran, por exemplo, pregava o ódio contra os “filhos das trevas” – isto é, contra aqueles que não pertenciam à comunidade essênia e que estavam, portanto, entregues à vingança divina).

Em qualquer caso, o amor ao próximo recomendado pela Lei havia adquirido, na época de Jesus, um sentido muito restrito: era o amor a esse próximo mais chegado que, quando muito, chegava a incluir todos os israelitas, mas que não atingia, em nenhum caso, os não membros do Povo eleito. Quando muito, o amor ao próximo atingia, na visão judaica, o compatriota, aquele que pertencia à comunidade do Povo de Deus.

O pedido de Jesus apresenta, portanto, uma verdadeira novidade e exige uma autêntica revolução das mentalidades. Para Jesus, não chega amar aquele que está próximo, aquele a quem me sinto ligado por laços étnicos, sociais, familiares ou religiosos; mas o amor deve atingir todos, sem exceção, inclusive os inimigos. Fica, assim, abolida qualquer discriminação; são abatidas todas as barreiras que separam os homens. Qual o motivo desta exigência?

É porque Deus também não faz discriminação no seu amor. Ele é o Pai que não distingue entre amigos e inimigos, que faz brilhar o sol e envia a chuva sobre bons e maus, que oferece o seu amor a todos, inclusive aos indignos (vers. 45). O amor universal de Deus é a razão do amor que os membros do “Reino” devem oferecer a todos os homens e mulheres que Deus coloca no seu caminho. “Ser filho de Deus” significa dar testemunho do amor de Deus e parecer-se com Deus no modo de agir.

A expressão final (“sede perfeitos como o vosso Pai celeste é perfeito”) parafraseia o refrão da “lei da santidade” que encontramos na primeira leitura (“sede santos porque Eu, o vosso Deus, sou santo”) e resume, de forma magnífica, o ensinamento que Mateus pretende apresentar à sua comunidade com estes seis exemplos (os quatro do passado domingo e os dois de hoje): viver na dinâmica do “Reino” exige a superação de uma perspectiva legalista e casuística, para viver em comunhão total com Deus, deixando que a vida de Deus, que enche o coração do crente, se manifeste na vida do dia-a-dia, inclusive nas relações fraternas.

Portanto o Evangelho deste domingo recorda-me que, ao aceitar o desafio de viver em comunhão com Deus, eu sou chamado a dar testemunho da vida de Deus diante de todos os meus irmãos e a ser um sinal vivo de Deus, do seu amor, da sua perfeição, da sua santidade, no meio do mundo. O Evangelho de hoje coloca, mais uma vez, como cenário de fundo, as exigências do compromisso com o “Reino”. Sugere que viver na dinâmica do “Reino” implica, não o cumprimento de ritos ou de leis, mas uma atitude nova, revolucionária, que resulta de um compromisso interior com Deus verdadeiramente assumido, e manifestado em atitudes concretas.

Exige a superação de uma religião feita de leis, de códigos, de ritos, de gestos externos e o viver em comunhão com Deus, de tal forma que a vida de Deus encha o coração do crente e transborde em gestos de amor para com os irmãos. Jesus pede, aos que aceitaram embarcar na aventura do “Reino”, a superação de uma lógica de vingança, de responder na mesma moeda, e o assumir uma atitude pacífica de não resposta às provocações, que inverta a espiral de violência e que inaugure um novo espírito nas relações entre os homens. Não é, no entanto, esta a lógica do mundo, mesmo do mundo “cristão”: em nome do direito de legítima defesa ou do direito de resposta, as nações em geral e as pessoas em particular recusam enveredar por uma lógica de paz e respondem ao mal com um mal ainda maior.

Caros irmãos,

Na segunda leitura, São Paulo(1Cor 3,16-23) convida os cristãos de Corinto – e os cristãos de todos os tempos e lugares – a serem o lugar onde Deus reside e Se revela aos homens. Para que isso aconteça, eles devem renunciar definitivamente à “sabedoria do mundo” e devem optar pela “sabedoria de Deus” (que é dom da vida, amor gratuito e total). Continuamos no contexto da comunidade cristã de Corinto. Depois de apresentar a “sabedoria de Deus”, revelada em Jesus Cristo (sobretudo através da “loucura da cruz”) e oferecida aos homens (cf. 1 Cor 1,18-2,16), Paulo constata que os coríntios ainda não acolheram essa sabedoria: mantêm-se na dimensão do homem carnal (isto é, do homem fraco, limitado, pecador, escravo das suas paixões e apetites), imaturos na fé; cultivam as divisões e os conflitos, em flagrante contradição com o que Jesus lhes ensinou; correm atrás de mestres humanos como se eles tivessem a chave da felicidade e da realização plena, esquecendo que, por detrás de Paulo ou de Apolo, está Deus (cf. 1 Cor 3,1-15). Ao viverem, ainda, de acordo com a “sabedoria do mundo”, os coríntios estão a ser infiéis à sua vocação: não dão testemunho de Deus e não o tornam presente no mundo.

É por isso que São Paulo pergunta: “Não sabeis que sois Templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós?” O Templo de Jerusalém é, no contexto do Antigo Testamento, a residência de Deus, o lugar por excelência da presença de Deus no meio do seu Povo. É aí que Israel encontra o seu Deus e estabelece comunhão com Ele. Mas agora, considera São Paulo, é a comunidade cristã que é o verdadeiro Templo da nova aliança, isto é, o lugar onde Deus reside, onde ele se manifesta aos homens e onde ele oferece a salvação.

Ora, ser Templo de Deus (lugar onde Deus reside no mundo e onde os homens encontram Deus) será compatível com uma existência onde a preocupação fundamental é procurar a “sabedoria do mundo”? A comunidade de Corinto pode ser Templo de Deus onde reside o Espírito e viver no conflito, na divisão, no ciúme, no confronto? Na segunda parte deste texto (vers. 18-23), Paulo exorta os coríntios a deixarem, definitivamente, a “sabedoria do mundo” e a pautarem a sua existência pela “sabedoria de Deus” (que é amor até ao extremo, que é dom da vida, que é cruz).

E Paulo volta a recordar: a “sabedoria de Deus” parece ser loucura aos olhos do mundo; mas é nessa “loucura” que reside o segredo da vida em plenitude. A última frase do nosso texto é muito rica: “tudo é vosso; mas vós sois de Cristo, e Cristo é de Deus” (vers. 23). Deve ser compreendida em função de 1 Cor 1,12: “cada um de vós diz: ‘eu sou de Paulo; e eu de Apolo; e eu de Cefas’”… “Não é assim”, esclarece Paulo. “Vós não pertenceis a estes pregadores; eles é que vos pertencem a vós, pois são vossos servidores. Eles estão ao vosso serviço para que vós descubrais Cristo e a ‘loucura da cruz’ e, para que por Cristo, o mediador da salvação, chegueis a Deus”.

Os cristãos são Templo de Deus, onde reside o Espírito. Isso quer dizer, em concreto, que, animados pelo Espírito, eles têm de ser o sinal vivo de Deus e as testemunhas da sua salvação diante dos homens do nosso tempo.

Podemos e devemos fazê-lo porque Deus o faz assim. Ele faz nascer o seu sol sobre bons e maus. Deus o faz assim, porque Jesus Cristo dá sua vida em favor de todos. Porque todos, bons e maus, justos e injustos, são igualmente objeto de amor e de perdão de Deus, chamados todos a participarem da comunhão de vida e de amor de Deus.

Na alegria de sermos perfeitos no amor, como Jesus nos convida, é cultivar em nós esta atitude de benquerença! Assim viveremos o verdadeiro amor no meio dos naturais conflitos e limitações, que pervadem o convívio humano. O amor cria o bem, gera a vida, transforma nossa própria pessoa e a sociedade!

Escrito por: Padre Wagner Augusto Portugal