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Evangelho - Mt 17,1-9

Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João, seu irmão,
e os levou a um lugar à parte, sobre uma alta montanha.
2E foi transfigurado diante deles;
o seu rosto brilhou como o sol
e as suas roupas ficaram brancas como a luz.
3Nisto apareceram-lhes Moisés e Elias,
conversando com Jesus.
4Então Pedro tomou a palavra e disse:
'Senhor, é bom ficarmos aqui.
Se queres, vou fazer aqui três tendas:
uma para ti, outra para Moisés, e outra para Elias.'
5Pedro ainda estava falando,
quando uma nuvem luminosa os cobriu com sua sombra.
E da nuvem uma voz dizia:
'Este é o meu Filho amado,
no qual eu pus todo meu agrado.
Escutai-o!'
6Quando ouviram isto, os discípulos ficaram muito 
assustados e caíram com o rosto em terra.
7Jesus se aproximou, tocou neles e disse:
'Levantai-vos, e não tenhais medo.'
8Os discípulos ergueram os olhos e não viram mais
ninguém, a não ser somente Jesus.
9Quando desciam da montanha, Jesus ordenou-lhes:
'Não conteis a ninguém esta visão até que o
Filho do Homem tenha ressuscitado dos mortos.'


12 de Março - II Domingo da Quaresma - Ano A

A liturgia da Santa Igreja nos apresenta, a cada ano, no segundo domingo da Quaresma o Evangelho da Transfiguração, no início da subida de Jesus a Jerusalém, onde ele levará a termo à vontade do Pai. Somos hoje convidados a acompanhar Jesus neste caminho. Nesta caminhada, para não desfalecermos em nossa fé, é bom termos diante dos olhos – como João, Tiago e Pedro, as privilegiadas testemunhas, a glória daquele que vai ser aniquilado, o Filho e Servo de Deus. E somos convidados a escutarmos a voz que sai da nuvem: “Escutai-o”.

A primeira leitura(Gn 12,1-4) nos apresenta a vocação de Abraão: “Sai da tua terra!”(Cf. Gn 12,1). Largar o que consideramos adquirido é a condição para caminhar no rumo que Deus indica. A Segunda Leitura é um breve comentário a este largar. A Segunda Leitura nos aponta a vocação santa que recebemos em Cristo, no qual resplandece a vitória sobre a morte. Essa vitória final, Pedro, Tiago e João a viram antecipadamente, e atestada por Moisés – a Lei – e Elias – os Profetas, no monte da Transfiguração. A visão desta glória é acompanhada pela voz: “Escutai-o”, o que lembra o “Ouve Israel” de Dt 6,4. É um prelúdio da ressurreição – por isso as testemunhas devem guardar o silêncio até que esta se realize.

Caros irmãos,

A primeira leitura de hoje tem como tema central a interpelação de Deus a Abraão. Segundo o teólogo jahwista, Deus chamou Abraão, convidou-o a deixar a sua terra e a sua família e a partir ao encontro de uma outra terra; ligado a este convite, aparece uma bênção e a promessa de a família de Abraão se tornar uma grande nação. Porquê esta iniciativa de Deus? Porquê o chamamento a este homem, em particular? O catequista jahwista não dá qualquer tipo de explicação. Temos aqui um exemplo perfeito desse mistério, sempre novo e sempre sem explicação, chamado “vocação”.
Como é que Abraão reage ao chamamento de Deus? É preciso ter em conta que, para os antigos, abandonar a terra (o horizonte natural onde o clã vive e onde tem as suas referências – inclusive em termos de paisagem), a pátria (isto é, o espaço onde o clã encontra o afeto e a solidariedade e, além disso, o seu espaço protegido por usos, leis e costumes) e a família (o círculo familiar íntimo, onde o homem encontra o apoio e o seu complemento), era pouco menos do que irrealizável. Abraão será capaz de arriscar tudo, deixando o seguro para apostar em algo nebuloso e incerto? Diante do desafio de Deus, Abraão permanece mudo, sem discutir nem objectar. Com consumada mestria, o autor jahwista limita-se a descrever a sequência dos acontecimentos, como se as ações de Abraão valessem por mil explicações: o patriarca, simplesmente, pôs-se a caminho. O verbo “yalak” utilizado no vers. 4 (“ir”, “partir”, “pôr-se a caminho”) tem uma força extraordinária e expressa a audácia do crente que é capaz de arriscar tudo, de deixar o seguro para apostar em algo que não é certo, confiando apenas na Palavra de Deus. Trata-se de um rasgo maravilhoso, que define uma atitude de fé radical, de confiança total, de obediência incondicional aos desígnios de Deus. Esta é uma das passagens onde o que se conta de Abraão tem um valor de modelo: o autor jahwista pretende ensinar aos seus concidadãos a obediência cega às propostas de Deus. Deus, por sua vez, compromete-se com Abraão e acena-lhe com uma promessa. A promessa expressa-se, neste contexto, através da bênção (a raiz “abençoar” é repetida cinco vezes, nestes poucos versículos). A bênção é uma comunicação de vida, através da qual Deus realiza a sua promessa de salvação. Na promessa aqui formulada, a bênção concretiza-se como descendência numerosa (noutros textos das “tradições patriarcais”, a bênção de Deus é, além da descendência numerosa, promessa de uma terra).

Particularmente importante, neste contexto da promessa é a ideia de que o Povo nascido de Abraão será uma fonte de bênção para todas as nações (vers. 3c): inaugura-se, aqui, a ideia de que Israel é o centro do mundo e de que a sua “vocação” é ser testemunha da salvação de Deus diante de todos os povos da terra. Não se trata de um privilégio concedido a Israel, mas de uma responsabilidade.

A figura de Abraão que nos foi apresentada pelos catequistas de Israel tem sido, ao longo dos tempos, uma figura inspiradora para todos os crentes. Abraão é o homem que encontra Deus, que está atento aos seus sinais e sabe interpretá-los, que responde aos desafios de Deus com uma obediência total e com uma entrega confiada. Esta figura constitui uma interpelação muito forte a esse homem moderno que nunca tem tempo para encontrar Deus nem para perceber os seus sinais, pois está demasiado ocupado a ganhar dinheiro ou a construir a carreira profissional.

A figura de Abraão questiona, também, o homem instalado e comodista, que prefere apostar na segurança do que já tem, em vez de arriscar na novidade de Deus, ou deixar que a Palavra de Deus ponha em causa os seus velhos hábitos, a sua forma de vida e a sua instalação.

Por detrás da história da humanidade há um Deus que tem um projeto para os homens e para o mundo e que esse projecto é de amor e de salvação. Apesar de os homens O ignorarem e prescindirem das suas orientações e propostas, Deus continua a vir ao seu encontro, a desafiá-los a caminhar em direcção ao novo, a propor-lhes ir mais além. O homem, por sua vez, é convidado a participar neste projecto, por meio da fé (entendida como adesão plena aos planos de Deus

Estimados Irmãos,

Jesus veio refazer em definitivo e ampliar ao máximo a aliança de Deus com o povo. A grande aliança de Deus com o povo no deserto acontecera no alto do Sinai, e as tábuas da Lei eram o sinal concreto, visível e viável do pacto entre Deus e o povo eleito: “Eu serei o vosso Deus e vós sereis o meu povo”(Cf. Lv 26,12). Jesus está agora caminhando para o momento decisivo da recriação da aliança entre Deus e o povo, está para fazer “a nova e eterna aliança”, como dizem as palavras da Consagração da Missa, já não mais gravada em pedra, mas escrita com seu sangue no coração de cada criatura humana.

No Sinai, o povo traiu a aliança, e preferiu um bezerro de ouro(Cf. Ex 32). Agora, pouco antes do episódio da Transfiguração, o povo se divide: a maioria se nega a aceitar a pregação de Jesus; e a minoria torna-se a dividir: uns esperam para logo um reino terreno de liberdade política, liderado por Jesus; outros estão perplexos, apesar da declaração de Pedro, que professara em nome dos doze: “Tu és o Cristo, Filho do Deus vivo”(Cf Mt 16,16). Tanto a incredulidade da maioria quanto o comportamento dúbio da minoria vêm anotados por Mateus no contexto da Transfiguração. Jesus seleciona três entre os que ainda podiam crer, e que se tornariam “as colunas da Igreja”(Cf. Gl 2,9), e os leva para o monte, confirma-lhes o caminho da paixão como passagem obrigatória para a ressurreição, o milagre-prova para todo o sempre da nova e eterna aliança.

Amados irmãos,

Abraão vivia em Ur dos Caldeus, aproximadamente 1800 anos antes de Cristo. Ur seria o Iraque atual. Deus o chama e ele obedece. Vamos notar que é Deus que o chama. Na história da humanidade e na história de cada um há sempre um chamado de Deus. Deus sempre precede aos nossos pensamentos e decisões. Contudo, o chamado gratuito de Deus se perde, se não houver a colaboração nossa com respeitosa resposta, pronto atendimento ao chamado do Senhor. Deus nos deu a inteligência, à vontade e os sentimentos suficientes para perceber o chamado divino e decidir aceitar ou não aceitar a sua convocação. O chamado de Deus – e está tão claro na história de Abraão – nem sempre vem com explicações ou com promessa de recompensas; pode ser até muito exigente, como o foi no caso de Abrão: teve de deixar sua terra, sua tribo, sua família; teve de partir para uma terra desconhecida. Teve de “morrer” para um passado e recomeçar tudo do nada, até mesmo sem saber o que significava esse recomeçar. Simplesmente confiou, plena e completamente, na vontade de Deus. Essa deve ser, caros amigos, a nossa atitude.

Abraão deve ser para nós o pai da confiança na misericórdia e na vontade de Deus. Confiou profundamente e com tanta unção que por um fio quase sacrificou o seu filho Isaac(Cf. Gn 21,1-19). Por isso, pela sua fé radical, Deus o fez e o proclamou pai de um povo abençoado, o povo eleito.

A fé de Abraão, de sua descendência, brotam inumeráveis bênçãos, das quais a maior de todas é Jesus de Nazaré, o Filho de Deus que se encarna no seio de uma mulher abrâanica.

Estimados amigos,

Os apóstolos estavam na mesma posição de Abraão. Jesus os convoca para serem testemunhas e protagonistas da nova criação, da nova Terra Prometida, que Jesus chamou de “Reino de Deus”. Mas tudo isso foi possível porque os discípulos saíram de si mesmos, tiveram que deixar de pensar curto com a inteligência humana, mas aos olhos da fé que tudo vence. Ultrapassaram a visão humana do projeto divino. Acreditaram no desconhecido. Abraçaram a vontade de Deus. Arrancaram seus próprios interesses para carregar a cruz com Jesus e com Ele morrer no Calvário. Abraão creu no Senhor, mesmo quando o Senhor pedia a morte do seu único filho. Os apóstolos, e nós hoje, devemos crer em Jesus, mesmo vendo-o pregado na cruz. Na obediência e no serviço solidário vamos haurir as bênçãos celestiais e a filiação por parte do Senhor Deus.

Abraão e o Calvário: duas histórias que nos acompanham por dentro de todo o caminhar de nossa existência. Obedecer à vontade de Deus ou compreende-la eis o dilema para nossa vida. A Transfiguração é escola de fé. A glória passa pelo pedágio da cruz, sem alternativa. Abraão caminho sozinho. Os discípulos caminham com Jesus. Cristo caminha conosco. Porque Ele é o Caminho, a Verdade e a Vida.

Assim, a prática cristã exige conversão permanente, para largarmos as falsas seguranças que a publicidade da sociedade consumista e as ideologias do proveito próprio e do egoísmo generalizado nos prometem, para arriscar uma nova caminhada, unida a Cristo e junto com os irmãos. Somos convidados a dar ouvidos ao Filho de Deus, como diz o Evangelho, e a receber de Cristo nossa vocação, para caminhar atrás dele – até a glória, passando, se preciso, pela Cruz. Assim como Abraão ouviu a voz de Deus e saiu de sua cidade em busca da terra que Deus lhe prometeu, devemos também nós largar o que nos prende, para seguir o chamado do Senhor.

Prezados irmãos,

O Evangelho de hoje é bem catequético, porque é destinado a ensinar que Jesus é o Filho de Deus e que o projeto que Ele propõe vem de Deus, está construída sobro elementos simbólicos tirados do Antigo Testamento. Que elementos são esses?

O monte situa-nos num contexto de revelação: é sempre num monte que Deus Se revela; e, em especial, é no cimo de um monte que Ele faz uma aliança com o seu Povo. A mudança do rosto e as vestes de brancura resplandecente recordam o resplendor de Moisés, ao descer do Sinai (cf. Ex 34,29), depois de se encontrar com Deus e de ter as tábuas da Lei. A nuvem, por sua vez, indica a presença de Deus: era na nuvem que Deus manifestava a sua presença, quando conduzia o seu Povo através do deserto (cf. Ex 40,35; Nm 9,18.22; 10,34).

Moisés e Elias representam a Lei e os Profetas (que anunciam Jesus e que permitem entender Jesus); além disso, são personagens que, de acordo com a catequese judaica, deviam aparecer no “dia do Senhor”, quando se manifestasse a salvação definitiva (cf. Dt 18,15-18; Mal 3,22-23).

O temor e a perturbação dos discípulos são a reação lógica de qualquer homem ou mulher diante da manifestação da grandeza, da omnipotência e da majestade de Deus (cf. Ex 19,16; 20,18-21).

As tendas parecem aludir à “festa das tendas”, em que se celebrava o tempo do êxodo, quando o Povo de Deus habitou em “tendas”, no deserto.

A mensagem fundamental, amassada com todos estes elementos, pretende dizer quem é Jesus. Recorrendo a simbologias do Antigo Testamento, o autor deixa claro que Jesus é o Filho amado de Deus, em quem se manifesta a glória do Pai. Ele é, também, esse Messias libertador e salvador esperado por Israel, anunciado pela Lei (Moisés) e pelos Profetas (Elias). Mais ainda: ele é um novo Moisés – isto é, aquele através de quem o próprio Deus dá ao seu Povo a nova lei e através de quem Deus propõe aos homens uma nova aliança.

Da ação libertadora de Jesus, o novo Moisés, irá nascer um novo Povo de Deus. Com esse novo Povo, Deus vai fazer uma nova aliança; e vai percorrer com ele os caminhos da história, conduzindo-o através do “deserto” que leva da escravidão à liberdade. Esta apresentação tem como destinatários os discípulos de Jesus (esse grupo desanimado e frustrado porque no horizonte próximo do seu líder está a cruz e porque o mestre exige dos discípulos que aceitem percorrer um caminho semelhante). Aponta para a ressurreição, aqui anunciada pela glória de Deus que se manifesta em Jesus, pelas vestes resplandecentes (que lembram as vestes resplandecentes dos anjos que anunciam a ressurreição – cf. Mt 28,3) e pelas palavras finais de Jesus (“não conteis a ninguém esta visão, até o Filho do Homem ressuscitar dos mortos” – Mt 17,9): diz-lhes que a cruz não será a palavra final, pois no fim do caminho de Jesus (e, consequentemente, dos discípulos que seguirem Jesus) está a ressurreição, a vida plena, a vitória sobre a morte.

Uma palavra final para o desejo – manifestado por Pedro – de construir três tendas no cimo do monte, como se pretendesse “assentar arraiais” naquele quadro. O pormenor pode significar que os discípulos queriam deter-se nesse momento de revelação gloriosa, ignorando o destino de sofrimento de Jesus. Jesus nem responde à proposta: Ele sabe que o projecto de Deus – esse projeto de construir um novo Povo de Deus e levá-lo da escravidão para a liberdade – tem de passar pelo caminho do dom da vida, da entrega total, do amor até às últimas consequências.

A questão fundamental expressa no episódio da transfiguração está na revelação de Jesus como o Filho amado de Deus, que vai concretizar o projeto salvador e libertador do Pai em favor dos homens através do dom da vida, da entrega total de si próprio por amor. Pela transfiguração de Jesus, Deus demonstra aos crentes de todas as épocas e lugares que uma existência feita dom não é fracassada – mesmo se termina na cruz. A vida plena e definitiva espera, no final do caminho, todos aqueles que, como Jesus, forem capazes de pôr a sua vida ao serviço dos irmãos.

Na verdade, os homens do nosso tempo têm alguma dificuldade em perceber esta lógica. Para muitos dos nossos irmãos, a vida plena não está no amor levado até às últimas consequências (até ao dom total da vida), mas sim na preocupação egoísta com os seus interesses pessoais, com o seu orgulho, com o seu pequeno mundo privado; não está no serviço simples e humilde em favor dos irmãos (sobretudo dos mais débeis, dos mais marginalizados e dos mais infelizes), mas no assegurar para si próprio uma dose generosa de poder, de influência, de autoridade e de domínio, que dê a sensação de pertencer à categoria dos vencedores; não está numa vida vivida como dom, com humildade e simplicidade, mas numa vida feita um jogo complicado de conquista de honras, de glórias e de êxitos.

Prezados irmãos,

Nos relatos dos Atos dos Apóstolos, São Paulo encontrou Timóteo em Listra, cidade da Licaónia, no decurso da sua segunda viagem missionária. Filho de pai grego e de mãe judeo-cristã, Timóteo devia ser ainda bastante jovem, nessa altura (cf. Act 16,1). No entanto, Paulo não hesitou em levá-lo consigo através da Ásia Menor, da Macedônia e da Grécia. Tímido e reservado, de saúde delicada (em 1 Tim 5,23 Paulo aconselha: “não continues a beber só água, mas mistura-a com um pouco de vinho, por causa do teu estômago e das tuas frequentes indisposições), Timóteo tornou-se um companheiro fiel e discreto do apóstolo no trabalho missionário. Para não ter problemas com os judeus, Paulo fê-lo circuncidar (cf. Act 16,3); e, numa data desconhecida para nós, Timóteo recebeu dos anciãos a “imposição das mãos” (cf. 1 Tim 4,14) que o designava como enviado da comunidade para anunciar o Evangelho de Jesus.

A atividade de Timóteo está bastante ligada a Paulo, como o demonstram as contínuas referências que Paulo lhe faz nos seus escritos. Com ternura, Paulo refere-se a Timóteo como o “nosso irmão, colaborador de Deus na pregação do Evangelho de Cristo” (1 Tes 3,2); e faz referências a Timóteo nas Cartas aos Tessalonicenses (cf. 1 Tes 11,1; 2 Tes 1,1), na 2 Coríntios (cf. 2 Cor 1,1), na Carta aos Romanos (cf. Rom 16,21), na Carta aos Filipenses (cf. Flp 1,1), na Carta aos Colossenses (cf. Col 1,1) e na Carta a Filémon (cf. Flm 1). Encarregou-o, também, de missões particulares entre os Tessalonicenses (cf. 1 Tes 3,2.6) e entre os Coríntios (cf. 1 Cor 4,17). Em relação à segunda Carta a Timóteo há, no entanto, um problema sério: a maioria dos exegetas considera esta carta posterior a Paulo (o mesmo acontece com a 1 Timóteo e com a Carta a Tito), sobretudo por aí aparecer um modelo de organização da Igreja que parece ser de uma época tardia, isto é, de finais do séc. I ou princípios do séc. II). A questão continua em aberto. Timóteo é, por esta altura, bispo de Éfeso, na costa ocidental da Ásia Menor. Estão a começar as grandes perseguições; muitos cristãos estão desanimados e vacilam na fé. É preciso que os líderes das comunidades – entre os quais está Timóteo – mantenham o ânimo e ajudem as comunidades a enfrentar, com fortaleza, as dificuldades que se avizinham.

A segunda leitura apresenta-se como uma exortação de São Paulo a Timóteo, convidando-o a superar a sua juventude e timidez e a ser um modelo de fidelidade e de fortaleza no testemunho da fé. O autor da segunda Carta a Timóteo apresenta os motivos que devem impulsionar Timóteo a cumprir com fidelidade a sua missão apostólica. Neste texto que nos é proposto, em concreto, o autor da carta recorda a Timóteo o projeto salvífico de Deus que, de forma gratuita, quer salvar os homens e chamá-los à santidade (cf. 2 Tim 1,9). Esse projeto manifestou-se em Jesus Cristo, o libertador, que destruiu a morte e o pecado e ofereceu a todos os homens a vida plena e definitiva (cf. 2 Tim 1,9-10). Ora Paulo (nesta altura prisioneiro por causa do Evangelho), Timóteo e todos os outros são as testemunhas deste projeto de Deus e não podem ficar calados diante do enfraquecimento da vida cristã que se constata nas comunidades; mesmo no meio das perseguições e dificuldades, eles não podem demitir-se da missão que Deus lhes confiou. Têm de ser testemunhas vivas, entusiastas e corajosas do projecto salvífico e amoroso de Deus.

Mais uma vez somos convidados a recordar que Deus tem um projeto de salvação e de vida plena para os homens, para todos os homens. Quase todos os domingos, a Palavra de Deus nos exorta a tomar consciência desse fato; mas nunca é demais lembrá-lo, até porque os homens do nosso tempo tendem a esquecer Deus e a viver sem a consciência da sua presença, do seu amor, da sua preocupação com a nossa vida, a nossa realização, a nossa felicidade. Se tivéssemos sempre consciência de que temos um lugar cativo no projeto de Deus e que o próprio Deus está a velar pela nossa realização e pela nossa felicidade, certamente a vida teria um outro sentido e no nosso coração haveria mais serenidade, mais paz, mais esperança.

Urge termos consciência de que nós, os batizzados, somos, aqui e agora, as testemunhas vivas de Deus e do seu projeto para os homens e para o mundo. Nada – e muito menos o nosso comodismo e instalação – pode distrair-nos dessa responsabilidade. Os homens, nossos irmãos, têm de encontrar em nós – e particularmente naqueles a quem foi confiada a missão de animar e orientar a comunidade – sinais vivos de Deus, do seu amor, da sua bondade e ternura, da sua preocupação com os homens.

É verdade que não é fácil ser testemunha de Deus e do seu projeto. O mundo de hoje tende a ignorar os apelos de Deus ou até manifesta desprezo pelos valores do Evangelho (esses valores que temos de testemunhar, a fim de sermos sinais do mundo novo que Deus quer propor aos homens). No entanto, as dificuldades não podem ser uma desculpa para nos demitirmos das nossas responsabilidades e de levarmos a sério a vocação a que Deus nos chama.

Caros irmãos,

Quando Jesus está em oração, não está só, Deus seu Pai está com Ele(Mt 17,1-9). O monte é o lugar da revelação de Deus e a nuvem é símbolo da sua presença. É, pois, no momento em que Jesus rezava que Deus Se manifesta, não somente a seu Filho, mas também aos seus discípulos, e a presença de Moisés e de Elias recorda a antiga aliança àqueles que vão beneficiar da nova aliança. Ao mesmo tempo que, no monte Sinai, Deus tinha revelado o seu Nome a Moisés para fazer sair do Egito o seu povo escolhido, também na montanha da Transfiguração Deus dá a identidade de Jesus: “Este é o meu Filho, o meu Eleito”. E aos três apóstolos, embaixadores de todos aqueles que reconhecerão em Jesus o Filho bem-amado, Deus pede para O escutar. É antes de ver a nuvem e de ouvir a voz do Pai que Pedro propõe para erguer três tendas para Jesus, Moisés e Elias, porque pensa que são apenas três. Será necessário que Deus Se manifeste para que Pedro, um pouco como Jacob, diga talvez: “Deus estava no monte e eu não sabia!” Será preciso chegar à manhã de Páscoa, e o dom do Espírito no Pentecostes, para que ele proclame a sua fé n’Aquele que Deus fez “Senhor e Messias, este Jesus que crucificaram”.

Também na vida da Comunidade eclesial dão-estes momentos de Tabor: a reunião da Assembléia, a escuta da Palavra, a celebração da Eucaristia e tantos outros. Eles reanimam e fortalecem, para que possamos descer com Cristo o monte Tabor e, tomando a sua Cruz, segui-lo pelas planícies da vida a subir com ele a colina do Calvário, que por sua vez se há de transfigurar.

Escrito por: Padre Wagner Augusto Portugal