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Evangelho - Mt 26,14-27,66

O que me dareis se vos entregar Jesus?
Naquele tempo:
14Um dos doze discípulos, chamado Judas Iscariotes,
foi ter com os sumos sacerdotes
15e disse: 'O que me dareis se vos entregar Jesus?'
Combinaram, então, trinta moedas de prata.
16E daí em diante, Judas procurava uma oportunidade
para entregar Jesus.

Onde queres que façamos os preparativos para comer a Páscoa?

17No primeiro dia da festa dos Ázimos,
os discípulos aproximaram-se de Jesus
e perguntaram: 'Onde queres que façamos os preparativos
para comer a Páscoa?'
18Jesus respondeu: 'Ide à cidade,
procurai certo homem e dizei-lhe:
'O Mestre manda dizer: o meu tempo está próximo,
vou celebrar a Páscoa em tua casa,
junto com meus discípulos'.'
19Os discípulos fizeram como Jesus mandou
e prepararam a Páscoa.

Um de vós vai me trair.

20Ao cair da tarde, Jesus pôs-se à mesa
com os doze discípulos.
21Enquanto comiam, Jesus disse:
'Em verdade eu vos digo, um de vós vai me trair.'
22Eles ficaram muito tristes
e, um por um, começaram a lhe perguntar:
'Senhor, será que sou eu?'
23Jesus respondeu:
'Quem vai me trair é aquele
que comigo põe a mão no prato.
24O Filho do Homem vai morrer,
conforme diz a Escritura a respeito dele.
Contudo, ai daquele que trair o Filho do Homem!
Seria melhor que nunca tivesse nascido!'
25Então Judas, o traidor, perguntou:
'Mestre, serei eu?'
Jesus lhe respondeu: 'Tu o dizes.'

Isto é o meu corpo. Isto é o meu sangue.

26Enquanto comiam, Jesus tomou um pão
e, tendo pronunciado a bênção,
partiu-o, distribuiu-o aos discípulos,
e disse: 'Tomai e comei, isto é o meu corpo.'
27Em seguida, tomou um cálice,
deu graças e entregou-lhes, dizendo:
'Bebei dele todos.
28Pois isto é o meu sangue, o sangue da aliança,
que é derramado em favor de muitos,
para remissão dos pecados.
29Eu vos digo: de hoje em diante
não beberei deste fruto da videira,
até ao dia em que, convosco, beberei o vinho novo
no Reino do meu Pai.'
30Depois de terem cantado salmos,
foram para o monte das Oliveiras.

Ferirei o pastor e as ovelhas do rebanho se dispersarão.

31Então Jesus disse aos discípulos:
'Esta noite,
vós ficareis decepcionados por minha causa.
Pois assim diz a Escritura: 'Ferirei o pastor
e as ovelhas do rebanho se dispersarão.'
32Mas, depois de ressuscitar,
eu irei à vossa frente para a Galiléia.'
33Disse Pedro a Jesus:
'Ainda que todos fiquem decepcionados por tua causa,
eu jamais ficarei.'
34Jesus lhe declarou:
'Em verdade eu te digo, que, esta noite,
antes que o galo cante, tu me negarás três vezes.'
35Pedro respondeu:
'Ainda que eu tenha de morrer contigo,
mesmo assim não te negarei.'
E todos os discípulos disseram a mesma coisa.

Começou a ficar triste e angustiado.

36Então Jesus foi com eles a um lugar chamado Getsêmani,
e disse: 'Sentai-vos aqui,
enquanto eu vou até ali para rezar!'
37Jesus levou consigo Pedro e os dois filhos de Zebedeu,
e começou a ficar triste e angustiado.
38Então Jesus lhes disse:
'Minha alma está triste até á morte.
Ficai aqui e vigiai comigo!'
39Jesus foi um pouco mais adiante,
prostrou-se com o rosto por terra e rezou:
'Meu Pai, se é possível, afaste-se de mim este cálice.
Contudo, não seja feito como eu quero,
mas sim como tu queres.'
40Voltando para junto dos discípulos,
Jesus encontrou-os dormindo, e disse a Pedro:
'Vós não fostes capazes de fazer
uma hora de vigília comigo?
41Vigiai e rezai, para não cairdes em tentação;
pois o espírito está pronto, mas a carne é fraca.'
42Jesus se afastou pela segunda vez e rezou:
'Meu Pai, se este cálice não pode passar
sem que eu o beba, seja feita a tua vontade!'
43Ele voltou de novo e encontrou os discípulos dormindo,
porque seus olhos estavam pesados de sono.
44Deixando-os, Jesus afastou-se e rezou pela terceira
vez, repetindo as mesmas palavras.
45Então voltou para junto dos discípulos e disse:
'Agora podeis dormir e descansar.
Eis que chegou a hora
e o Filho do Homem é entregue nas mãos dos pecadores.
46Levantai-vos! Vamos!
Aquele que me vai trair, já está chegando.'

Lançaram as mãos sobre Jesus e o prenderam.

47Jesus ainda falava, quando veio Judas, um dos Doze,
com uma grande multidão armada de espadas e paus.
Vinham a mandado dos sumos sacerdotes
e dos anciãos do povo.
48O traidor tinha combinado com eles um sinal, dizendo:
'Jesus é aquele que eu beijar; prendei-o!'
49Judas, logo se aproximou de Jesus, dizendo:
'Salve, Mestre!' E beijou-o.
50Jesus lhe disse:
'Amigo, a que vieste?'
Então os outros avançaram
lançaram as mãos sobre Jesus e o prenderam.
51Nesse momento, um dos que estavam com Jesus
estendeu a mão, puxou a espada,
e feriu o servo do Sumo Sacerdote,
cortando-lhe a orelha.
52Jesus, porém, lhe disse:
'Guarda a espada na bainha!
pois todos os que usam a espada pela espada morrerão.
53Ou pensas que eu não poderia recorrer ao meu Pai
e ele me mandaria logo mais de doze legiões de anjos?
54Então, como se cumpririam as Escrituras,
que dizem que isso deve acontecer?
55E, naquela hora, Jesus disse à multidão:
'Vós viestes com espadas e paus para me prender,
como se eu fosse um assaltante.
Todos os dias, no Templo, eu me sentava para ensinar,
e vós não me prendestes.'
56Porém, tudo isto aconteceu
para se cumprir o que os profetas escreveram.
Então todos os discípulos, abandonando Jesus, fugiram.

Vereis o Filho do Homem sentado à direita do Todo-poderoso.

57Aqueles que prenderam Jesus
levaram-no à casa do Sumo Sacerdote Caifás,
onde estavam reunidos os mestres da Lei e os anciãos.
58Pedro seguiu Jesus de longe
até o pátio interno da casa do Sumo Sacerdote.
Entrou e sentou-se com os guardas
para ver como terminaria tudo aquilo.
59Ora, os sumos sacerdotes e todo o Sinédrio
procuravam um falso testemunho contra Jesus,
a fim de condená-lo à morte.
60E nada encontraram,
embora se apresentassem muitas falsas testemunhas.
Por fim, vieram duas testemunhas,
61que afirmaram: 'Este homem declarou:
'posso destruir o Templo de Deus
e construí-lo de novo em três dias'.'
62Então o Sumo Sacerdote levantou-se
e perguntou a Jesus: 'Nada tens a responder
ao que estes testemunham contra ti?'
63Jesus, porém, continuava calado.
E o Sumo Sacerdote lhe disse:
'Eu te conjuro pelo Deus vivo
que nos digas se tu és o Messias, o Filho de Deus.'
64Jesus respondeu: 'Tu o dizes.
Além disso, eu vos digo que de agora em diante
vereis o Filho do Homem
sentado à direita do Todo-poderoso,
vindo sobre as nuvens do céu.'
65Então o sumo sacerdote rasgou suas vestes
e disse: 'Blasfemou!
Que necessidade temos ainda de testemunhas?
Pois agora mesmo vós ouvistes a blasfêmia.
66Que vos parece?' Responderam: 'É réu de morte!'
67Então cuspiram no rosto de Jesus e o esbofetearam.
Outros lhe deram bordoadas,
68dizendo: 'Faze-nos uma profecia, Cristo,
quem foi que te bateu?'

Antes que o galo cante, tu me negarás três vezes.

69Pedro estava sentado fora, no pátio.
Uma criada chegou perto dele e disse:
'Tu também estavas com Jesus, o Galileu!'
70Mas ele negou diante de todos:
'Não sei o que tu estás dizendo'.
71E saiu para a entrada do pátio.
Então uma outra criada viu Pedro
e disse aos que estavam ali:
'Este também estava com Jesus, o Nazareno.'
72Pedro negou outra vez, jurando:
'Nem conheço esse homem!'
73Pouco depois, os que estavam ali
aproximaram-se de Pedro e disseram:
'É claro que tu também és um deles,
pois o teu modo de falar te denuncia.'
74Pedro começou a maldizer e a jurar, dizendo
que não conhecia esse homem!'
E nesse instante o galo cantou.
75Pedro se lembrou do que Jesus tinha dito:
'Antes que o galo cante, tu me negarás três vezes.'
E saindo dali, chorou amargamente.

Entregaram Jesus a Pilatos, o governador.

27,1De manhã cedo,
todos os sumos sacerdotes e os anciãos do povo
convocaram um conselho contra Jesus,
para condená-lo à morte.
2Eles o amarraram, levaram-no
e o entregaram a Pilatos, o governador.

Não é lícito colocá-las no tesouro porque é preço de sangue.

3Então Judas, o traidor,
ao ver que Jesus fora condenado, ficou arrependido
e foi devolver as trinta moedas de prata
aos sumos sacerdotes e aos anciãos,
4dizendo: 
'Pequei, entregando à morte um homem inocente.'
Eles responderam: 'O que temos nós com isso?
O problema é teu.'
5Judas jogou as moedas no santuário,
saiu e foi se enforcar.
6Recolhendo as moedas, os sumos sacerdotes disseram:
'É contra a Lei colocá-las no tesouro do Templo,
porque é preço de sangue.'
7Então discutiram em conselho
e compraram com elas o Campo do Oleiro,
para aí fazer o cemitério dos estrangeiros.
8É por isso que aquele campo até hoje
é chamado de 'Campo de Sangue'.
9Assim se cumpriu o que tinha dito o profeta Jeremias:
'Eles pegaram as trinta moedas de prata
- preço do Precioso,
preço com que os filhos de Israel o avaliaram -
10e as deram em troca do Campo do Oleiro,
conforme o Senhor me ordenou!'

Tu és o rei dos judeus?

11Jesus foi posto diante do governador,
e este o interrogou:
'Tu és o rei dos judeus?'
Jesus declarou: 'É como dizes',
12e nada respondeu, quando foi acusado
pelos sumos sacerdotes e anciãos.
13Então Pilatos perguntou:
'Não estás ouvindo de quanta coisa eles te acusam?'
14Mas Jesus não respondeu uma só palavra,
e o governador ficou muito impressionado.
15Na festa da Páscoa,
o governador costumava soltar o prisioneiro
que a multidão quisesse.
16Naquela ocasião, tinham um prisioneiro famoso,
chamado Barrabás.
17Então Pilatos perguntou à multidão reunida:
'Quem vós quereis que eu solte:
Barrabás, ou Jesus, a quem chamam de Cristo?'
18Pilatos bem sabia
que eles haviam entregado Jesus por inveja.
19Enquanto Pilatos estava sentado no tribunal,
sua mulher mandou dizer a ele: 
'Não te envolvas com esse justo! porque esta noite,
em sonho, sofri muito por causa dele.'
20Porém, os sumos sacerdotes e os anciãos
convenceram as multidões para que pedissem Barrabás
e que fizessem Jesus morrer.
21O governador tornou a perguntar:
'Qual dos dois quereis que eu solte?'
Eles gritaram: 'Barrabás.'
22Pilatos perguntou: 'Que farei com Jesus,
que chamam de Cristo?'
Todos gritaram: 'Seja crucificado!'
23Pilatos falou: 'Mas, que mal ele fez?'
Eles, porém, gritaram com mais força:
'Seja crucificado!'
24Pilatos viu que nada conseguia
e que poderia haver uma revolta.
Então mandou trazer água,
lavou as mãos diante da multidão, e disse:
'Eu não sou responsável pelo sangue deste homem.
Este é um problema vosso!'
25O povo todo respondeu:
'Que o sangue dele caia sobre nós
e sobre os nossos filhos'.
26Então Pilatos soltou Barrabás,
mandou flagelar Jesus,
e entregou-o para ser crucificado.

Salve, rei dos judeus!

27Em seguida, os soldados de Pilatos
levaram Jesus ao palácio do governador,
e reuniram toda a tropa em volta dele.
28Tiraram sua roupa e o vestiram com um manto vermelho;
29depois teceram uma coroa de espinhos,
puseram a coroa em sua cabeça, 
e uma vara em sua mão direita.
Então se ajoelharam diante de Jesus e zombaram, 
dizendo:'Salve, rei dos judeus!'
30Cuspiram nele
e, pegando uma vara, bateram na sua cabeça.
31Depois de zombar dele,
tiraram-lhe o manto vermelho
e, de novo, o vestiram com suas próprias roupas.
Daí o levaram para crucificar.

Com ele também crucificaram dois ladrões.

32Quando saíam, encontraram um homem chamado Simão,
da cidade de Cirene,
e o obrigaram a carregar a cruz de Jesus.
33E chegaram a um lugar chamado Gólgota,
que quer dizer 'lugar da caveira'.
34Ali deram vinho misturado com fel para Jesus beber.
Ele provou, mas não quis beber.
35Depois de o crucificarem,
fizeram um sorteio, repartindo entre si as suas vestes.
36E ficaram ali sentados, montando guarda.
37Acima da cabeça de Jesus
puseram o motivo da sua condenação:
'Este é Jesus, o Rei dos Judeus.'
38Com ele também crucificaram dois ladrões,
um à direita e outro à esquerda de Jesus.

Se és o Filho de Deus, desce da cruz!

39As pessoas que passavam por ali o insultavam,
balançando a cabeça e dizendo:
40'Tu que ias destruir o Templo
e construí-lo de novo em três dias,
salva-te a ti mesmo!
Se és o Filho de Deus, desce da cruz!'
41Do mesmo modo, os sumos sacerdotes,
junto com os mestres da Lei e os anciãos,
também zombaram de Jesus:
42'A outros salvou... a si mesmo não pode salvar!
É Rei de Israel... Desça agora da cruz!
e acreditaremos nele.
43Confiou em Deus; que o livre agora,
se é que Deus o ama!
Já que ele disse: Eu sou o Filho de Deus.'
44Do mesmo modo, também os dois ladrões
que foram crucificados com Jesus, o insultavam.

Eli, Eli, lamá sabactâni?

45Desde o meio-dia até às três horas da tarde,
houve escuridão sobre toda a terra.
46Pelas três horas da tarde, Jesus deu um forte grito:
'Eli, Eli, lamá sabactâni?',
que quer dizer: 'Meu Deus, meu Deus,
por que me abandonaste?'
47Alguns dos que ali estavam, ouvindo-o, disseram:
'Ele está chamando Elias!'
48E logo um deles, correndo, pegou uma esponja,
ensopou-a em vinagre, colocou-a na ponta de uma vara,
e lhe deu para beber.
49Outros, porém, disseram:
'Deixa, vamos ver se Elias vem salvá-lo!'
50Então Jesus deu outra vez um forte grito
e entregou o espírito.

Aqui todos se ajoelham e faz-se uma pausa.

51E eis que a cortina do santuário
rasgou-se de alto a baixo, em duas partes,
a terra tremeu e as pedras se partiram.
52Os túmulos se abriram
e muito corpos dos santos falecidos ressuscitaram!
53Saindo dos túmulos, depois da ressurreição de Jesus,
apareceram na Cidade Santa
e foram vistos por muitas pessoas.
54O oficial e os soldados
que estavam com ele guardando Jesus,
ao notarem o terremoto e tudo que havia acontecido,
ficaram com muito medo e disseram:
'Ele era mesmo Filho de Deus!'
55Grande número de mulheres estava alí, olhando de longe.
Elas haviam acompanhado Jesus desde a Galiléia,
prestando-lhe serviços.
56Entre elas estavam Maria Madalena,
Maria, mãe de Tiago e de José,
e a mãe dos filhos de Zebedeu.

José colocou o corpo de Jesus em um túmulo novo.

57Ao entardecer,
veio um homem rico de Arimatéia, chamado José,
que também se tornara discípulo de Jesus.
58Ele foi procurar Pilatos e pediu o corpo de Jesus.
Então Pilatos mandou que lhe entregassem o corpo.
59José, tomando o corpo,
envolveu-o num lençol limpo,
60e o colocou em um túmulo novo,
que havia mandado escavar na rocha.
Em seguida, rolou uma grande pedra
para fechar a entrada do túmulo, e retirou-se.
61Maria Madalena e a outra Maria
estavam ali sentadas, diante do sepulcro.

Tendes uma guarda. Ide, guardai o sepulcro como melhor vos parecer.

62No dia seguinte,
como era o dia depois da preparação para o sábado,
os sumos sacerdotes e os fariseus foram ter com
Pilatos,
63e disseram: 'Senhor, nós nos lembramos
de que quando este impostor ainda estava vivo, disse:
'Depois de três dias eu ressuscitarei!'
64Portanto, manda guardar o sepulcro até ao terceiro dia,
para não acontecer que os discípulos venham roubar o
corpo e digam ao povo: 'Ele ressuscitou dos mortos!'
pois essa última impostura seria pior do que a
primeira.'
65Pilatos respondeu: 'Tendes uma guarda.
Ide e guardai o sepulcro como melhor vos parecer.'
66Então eles foram reforçar a segurança do sepulcro:
lacraram a pedra e montaram guarda.


09 de Abril - Domingo de Ramos - Ano A

Contemplamos na abertura da Semana Santa a figura do Messias Padecente. Neste ano litúrgico A podemos entrar no espírito do Evangelista Mateus ao narrar a Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo(cf. Mt 26,14-27,66). Mateus ressalta o cumprimento, na vida e na morte de Jesus de Nazaré, do plano divino, expresso no Antigo Testamento. Neste sentido, podemos observar como Jesus realiza a figura do Servo Padecente de Deus, apresentada na primeira Leitura(cf. Is 50,4-7). Na cena do Getsêmani, por exemplo, Mateus é o único evangelista a colocar literalmente nos lábios de Jesus a expressão do Pai Nosso: “Seja feita a tua vontade”(cf. Mt 26,42).

Neste domingo lemos dois Evangelhos: um antes de começar a procissão de Ramos e outro na hora litúrgica costumeira. No primeiro Evangelho(cf. Mt 21,1-11) vamos repetir a cena dos judeus ao aclamar o Senhor como Cristo Senhor e Rei. E o segundo Evangelho(cf. Mt 26,14-27,66), o da Paixão, tem a tonalidade da morte. Morte que Mateus aponta ao Cristo como vitória da vida plena, vitória de quem tem a plenitude de todo o poder, no céu e na terra.

Vamos rezar neste domingo a partir da reflexão da Paixão do Senhor. Que os ramos que hoje trazemos conosco em nossas mãos nos levem ao Cristo mártir, vitorioso sobre a morte e que nos traz a vida plena. O Cristo que padece condenado por homens insanos, para garantir às criaturas humanas a libertação da injustiça e da morte e a posse da santidade e da vida. As palmas em nossas mãos querem significar que estamos prontos a fazer o mesmo itinerário, o mesmo horizonte, o mesmo caminho de Jesus.

Caros fiéis,

A primeira leitura(Is 50,4-7) dá a palavra a um personagem anônimo, que fala do seu chamamento por Deus para a missão. Ele não se intitula “profeta”; porém, narra a sua vocação com os elementos típicos dos relatos proféticos de vocação.

Em primeiro lugar, a missão que este “profeta” recebe de Deus tem claramente a ver com o anúncio da Palavra. O profeta é o homem da Palavra, através de quem Deus fala; a proposta de redenção que Deus faz a todos aqueles que necessitam de salvação/libertação ecoa na palavra profética. O profeta é inteiramente modelado por Deus e não opõe resistência nem ao chamamento, nem à Palavra que Deus lhe confia; mas tem de estar, continuamente, numa atitude de escuta de Deus, para que possa depois apresentar – com fidelidade – essa Palavra de Deus para os homens.

Em segundo lugar, a missão profética concretiza-se no sofrimento e na dor. É um tema sobejamente conhecido da literatura profética: o anúncio das propostas de Deus provoca resistências que, para o profeta, se consubstanciam, quase sempre, em dor e perseguição. No entanto, o profeta não se demite: a paixão pela Palavra sobrepõe-se ao sofrimento. Em terceiro lugar, vem a expressão de confiança no Senhor, que não abandona aqueles a quem chama. A certeza de que não está só, mas de que tem a força de Deus, torna o profeta mais forte do que a dor, o sofrimento, a perseguição. Por isso, o profeta “não será confundido”.

Não sabemos, efetivamente, quem é este “servo de Jahwéh”; no entanto, os primeiros cristãos vão utilizar este texto como grelha para interpretar o mistério de Jesus: Ele é a Palavra de Deus feita carne, que oferece a sua vida para trazer a salvação/libertação aos homens. A vida de Jesus realiza plenamente esse destino de dom e de entrega da vida em favor de todos; e a sua glorificação mostra que uma vida vivida deste jeito não termina no fracasso, mas na ressurreição que gera vida nova.

Jesus, o “servo” sofredor, que faz da sua vida um dom por amor, mostra aos seus seguidores o caminho: a vida, quando é posta ao serviço da libertação dos pobres e dos oprimidos, não é perdida mesmo que pareça, em termos humanos, fracassada e sem sentido.

Prezados irmãos,

Vamos situar a segunda leitura de hoje: a cidade de Filipos era uma cidade próspera, com uma população constituída maioritariamente por veteranos romanos do exército. Organizada à maneira de Roma, estava fora da jurisdição dos governantes das províncias locais e dependia diretamente do imperador; gozava, por isso, dos mesmos privilégios das cidades de Itália. A comunidade cristã, fundada por Paulo, era uma comunidade entusiasta, generosa, comprometida, sempre atenta às necessidades de Paulo e do resto da Igreja (como no caso da coleta em favor da Igreja de Jerusalém – cf. 2 Cor 8,1-5), por quem Paulo nutria um afeto especial. Apesar destes sinais positivos, não era, no entanto, uma comunidade perfeita. O desprendimento, a humildade e a simplicidade não eram valores demasiado apreciados entre os altivos patrícios que compunham a comunidade. É neste enquadramento que podemos situar o texto que a segunda leitura nos apresenta no Domingo de Ramos. São Paulo convida os Filipenses a encarnar os valores que marcaram a trajetória existencial de Cristo; para isso, utiliza um hino pré-paulino, recitado nas celebrações litúrgicas cristãs: nesse hino, ele expõe aos cristãos de Filipos o exemplo de Cristo.

Cristo Jesus – nomeado no princípio, no meio e no fim – constitui o motivo do hino. Dado que os Filipenses são cristãos – quer dizer, dado que Cristo é o protótipo a cuja imagem estão configurados – têm a iniludível obrigação de comportar-se como Cristo. Como é o exemplo de Cristo? O hino começa por aludir subtilmente ao contraste entre Adão (o homem que reivindicou ser como Deus e Lhe desobedeceu – cf. Gn 3,5.22) e Cristo (o Homem Novo que, ao orgulho e revolta de Adão responde com a humildade e a obediência ao Pai). A atitude de Adão trouxe fracasso e morte; a atitude de Jesus trouxe exaltação e vida. Em traços precisos, o hino define o “despojamento” (“kenosis”) de Cristo: Ele não afirmou com arrogância e orgulho a sua condição divina, mas aceitou fazer-Se homem, assumindo com humildade a condição humana, para servir, para dar a vida, para revelar totalmente aos homens o ser e o amor do Pai.

Não deixou de ser Deus; mas aceitou descer até aos homens, fazer-Se servidor dos homens, para garantir vida nova para os homens. Esse “abaixamento” assumiu mesmo foros de escândalo: Jesus aceitou uma morte infamante – a morte de cruz – para nos ensinar a suprema lição do serviço, do amor radical, da entrega total da vida. No entanto, essa entrega completa ao plano do Pai não foi uma perda nem um fracasso: a obediência e entrega de Cristo aos projetos do Pai resultaram em ressurreição e glória. Em consequência da sua obediência, do seu amor, da sua entrega, Deus fez d’Ele o “Kyrios” (“Senhor” – nome que, no Antigo Testamento, substituía o nome impronunciável de Deus); e a humanidade inteira (“os céus, a terra e os infernos”) reconhece Jesus como “o Senhor” que reina sobre toda a terra e que preside à história. É óbvio o apelo à humildade, ao desprendimento, ao dom da vida, que Paulo aqui faz aos Filipenses e a todos os crentes: o cristão deve ter como exemplo esse Cristo, servo sofredor e humilde, que fez da sua vida um dom a todos. Esse caminho não levará ao aniquilamento, mas à glória, à vida plena. Paulo tem consciência de que está a pedir aos seus cristãos algo realmente difícil; mas é algo que é fundamental, à luz do exemplo de Cristo.

Amigos e Amigas,

São Mateus acentua que Jesus realiza o plano divino da salvação, expresso clara ou veladamente em todo o Antigo Testamento. Mateus atualiza as profecias em Jesus, daí a assertiva: “Meu Deus, Meu Deus, porque me abandonastes?” (Cf. Sl 22). Quando os sumos sacerdotes pedem a Jesus que ele coloque a sua confiança em Deus, para que Deus o livre agora deste cálice, Mateus faz um paralelo entre a angústia e a confiança absoluta. Tudo estava programado na missão do Senhor. A angústia vai dando lugar à confiança em Deus, ao convite para louvar, glorificar e venerar o Senhor, que não abandona o atribulado, e passa a falar da realeza do senhor, diante de quem se prostrarão todos os poderosos do mundo, e do novo povo que há de nascer deste momento.

Presente, também está, a figura do Servo de Javé, que foi castigado e humilhado por Deus, foi transpassado e esmagado por causa de nossos crimes, embora não tivesse praticado nenhuma violência, nem houvesse falsidade em seus lábios. Depois de profundos sofrimentos a causa do Evangelho vai triunfar, todos serão justificados na ressurreição do Cristo.

Mateus nos deixa uma clara mensagem sobre a morte de Judas, depois de ter recebido trinta moedas de prata: Judas é o símbolo da pessoa que recebeu o Messias, mas o rejeita por interesses mesquinhos, e por isso será duramente julgado e condenado, mesmo percebendo seu erro. Por isso, não sejamos como Judas que traiu o Cristo por uma ninharia. Que o seu exemplo afaste de nós o desejo do ter, do poder e da disputa de poder, da inveja, da calúnia e da ausência de caridade.

Estimados amigos,

No trecho da Paixão que lemos a pouco fica clara a glorificação de Cristo sobre a morte.  A morte não está sendo visa como uma vergonha, mas como um caminho de glória, uma “teofania”, isto é, uma manifestação de Deus. Várias vezes Jesus aplicou a si a expressão do Antigo Testamento: “Filho de Deus”(cf. Profeta Daniel 7,13s).

O Filho de Deus vai ser julgado e condenado, ele aproxima a expressão à glória divina. O Filho de Deus que será julgado é “um ser misterioso, conduzido por Deus sobre as nuvens ao céu para receber a realeza divina”(cf. Dn 7,13s).

A um messias meramente humano, os inteligentes poderiam compreender, adaptar-se a ele sem deixar os interesses pessoais. Mas a um Messias Divino, quem quisesse compreender e seguir deveria renunciar-se primeiro. Jesus mesmo prevenira: “Se alguém quiser me seguir, renuncie primeiro a si mesmo”(cf. Mc 8, 34).

A paixão foi decisiva para Jesus, para os discípulos, para os apóstolos e para a humanidade. A paixão inaugura um tempo novo, um novo mundo, um novo céu e uma nova terra.

No dia da morte de Jesus as trevas cobriram o mundo de meio dia até as quinze horas. No início da criação Deus cria a luz. Agora aquele que é a luz do mundo “entrega o seu espírito” para que uma nova luz, a luz da vida(cf. Jo 8,12) seja instalada no mundo, brilhe para toda a humanidade.

Na morte e da morte nasce a vida plena. A morte de Jesus não é a palavra final e nem o fim. A morte de Jesus é uma recreação, um novo começo. Ressuscitam mortos em torno do Calvário, e, dentro de três dias, o próprio Jesus, morto e sepultado, ressurgirá vitorioso.

O templo teve o seu véu rasgado de cima até embaixo: aqui reside a simbologia de um tempo novo. No novo templo a cortina não terá mais sentido, porque o Cristo assumiu o povo todo, que passou a ser o “corpo do Senhor”(cf. 1 Cor 12,27).

O novo templo é o próprio Cristo, a morada perfeita, ou somos todos nós(cf. 1Cor3,16), em fase de crescimento. O “santo dos Santos”, que marcava a presença de Deus no templo, deixa de ser um lugar para ser uma comunidade: “Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, eu estarei no meio deles”(cf. Mt 18,20).

Meus queridos amigos,

A Igreja está com Jesus crucificado. Somente deste modo a Igreja Católica continua hoje oferecendo um sacrifício espiritual agradável ao Pai; quando, reconhecendo-se pecadora e sempre necessitada de salvação, apresenta não os próprios méritos e sucessos, mas a lembrança viva da sua Cabeça crucificada, do Filho bem-amado, de cuja morte e ressurreição recebe luz e força para ser fiel a sua missão. Aceitando com alegria o sofrimento que completa a paixão de seu Senhor e Mestre, a Igreja pode oferecer o sacrifício eucarístico, como voz dos pobres, dos humilhados, dos desafortunados e dos oprimidos, anunciando a esperança da libertação. E pode fazê-lo com tanto mais verdade, quanto mais houver escolhido não os caminhos do poder, do sucesso e do bem-estar, mas o da coragem para repelir a injustiça e compartilhar plenamente da sorte dos humildes.

Enquanto temos facilidade em ver as culpas ou fraquezas dos outros, não estamos nós corrompidos pelos mesmos males? Pensemos talvez que acusando os outros nos desculpamos a nós mesmos? Nesse caso, São Paulo nos diria que somos “indesculpáveis”(cf. Rm 2,1).

Prezados irmãos,

Contemplar a cruz, onde se manifesta o amor e a entrega de Jesus, significa assumir a mesma atitude e solidarizar-se com aqueles que são crucificados neste mundo: os que sofrem violência, os que são explorados, os que são excluídos, os que são privados de direitos e de dignidade. Olhar a cruz de Jesus significa denunciar tudo o que gera ódio, divisão, medo, em termos de estruturas, valores, práticas, ideologias; significa evitar que os homens continuem a crucificar outros homens; significa aprender com Jesus a entregar a vida por amor. Viver deste jeito pode conduzir à morte; mas o cristão sabe que amar como Jesus é viver a partir de uma dinâmica que a morte não pode vencer: o amor gera vida nova e introduz na nossa carne os dinamismos da ressurreição.

Caros fiéis,

Jesus aceitou todos os acontecimentos, conforme nos ensinou Paulo: “Humilhou-se, feito obediente até à morte e morte de Cruz; por isso Deus o exaltou e lhe deu um Nome que está acima de todo o nome, para que ao Nome de Jesus se dobre todo joelho de quantos há na terra, no céu e nos abismos”(cf. Fl. 2,8-10). Este despojamento de Jesus está resumido na segunda leitura que realiza na figura do Servo e que, por sua obediência até a morte – o amor radical que manifesta o Deus-Amor – é glorificado no senhorio de Deus.

Guardemos estas palmas que carregamos em nossos lares e oratórios, pois são sacramentais, isto é, objetos dignos de toda a nossa veneração e cujo uso respeitoso, como ensina a tradição da Igreja nas orações que emprega, podem trazer muitas graças de Deus às pessoas e lugares que os guardam. O exemplo de Cristo que nos ensina o caminho de libertação nos chama a viver a intensidade desta semana Santa. Vamos procurar realizar a missão de libertar o mundo pela fidelidade radical à vontade do Pai. Por isso, devemos “prestar-lhe ouvidos”- sentido original de obediência. Obedecer não é deserção da liberdade. Obedecer é unir nossa vontade a vontade do Pai, para realizar seu projeto de amor, e as outras vontades que estão no mesmo projeto. E é também dar ouvidos aos gritos dos injustiçados, que denuncia o pisoteamento do projeto de Deus.

Jesus foi fiel ao projeto do Pai. Deus esperava de Jesus fidelidade a seu plano de amor e que Ele agisse conforme este plano. Jesus foi fiel a esta missão até o fim. Com sua morte ele trouxe a vida. Que nós todos esperamos, pela nossa fé, a ressurreição final. Amém!

Escrito por: Padre Wagner Augusto Portugal