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Evangelho - Jo 3,16-18

Deus amou tanto o mundo,
que deu o seu Filho unigênito,
para que não morra todo o que nele crer,
mas tenha a vida eterna.
17De fato, Deus não enviou o seu Filho ao mundo
para condenar o mundo,
mas para que o mundo seja salvo por ele.
18Quem nele crê, não é condenado,
mas quem não crê, já está condenado,
porque não acreditou no nome do Filho unigênito.


11 de Junho - Solenidade da Santíssima Trindade

Meus queridos Irmãos,

Este tempo maravilhoso de Páscoa, que foi encerrado com o Domingo de Pentecostes, nos colocou diante dos olhos a unidade da obra do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Cristo veio cumprir a obra do Pai e nos deu seu Espírito, para que ficássemos nele e mantivéssemos a obra do Pai e nos deu seu Espírito, para que ficássemos nele e mantivéssemos o que Ele fundou, renovando-o constantemente, neste mesmo Espírito. Assim, a festa de hoje vem contemplar o tempo pascal, como uma espécie de síntese. Síntese, porém, não intelectual, mas “misterial”, isto é, celebrando a nossa participação na obra das pessoas divinas. A festa da Santíssima Trindade sempre foi celebrada no domingo seguinte ao domingo de Pentecostes, com a finalidade de mostrar o triunfo da Santíssima Trindade na história da salvação: o Pai Criador, o Filho Salvador, o Espírito Santo que renova e refaz todas as coisas.

Amigos e amigas,

Foi Jesus que revelou que no Deus único, há três pessoas distintas. Santo Antônio afirmou que na palavra Pax está contida a revelação do mistério da Trindade: “Note que na palavra pax, paz, há três letras e uma sílaba, em que se designa a Trindade e a Unidade: no P, o Pai; no A, primeira vogal, o Filho, que é a voz do Pai; no X, consoante dupla, o Espírito Santo, procedente de ambos. Assim, ao dizer: A paz esteja convosco, recomenda-nos Cristo a fé na Trindade e na Unidade”.

A Santíssima Trindade, na palavra do Concílio Ecumênico Vaticano II, afirma que o dogma da Santíssima Trindade é o centro de nossa fé.

O próprio Cristo envia os seus discípulos para a missão determinando que o mandato do batismo seja efetuado em nome da Trindade Santíssima: “Ide pelo mundo e batizai a todos em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”(Cf. Mt 28,19).  A existência de um Deus único, com uma só natureza divina, mas distinto em três pessoas, é revelação de Jesus.

Por isso a Santíssima Trindade permeia toda a vida do cristão. Todas as vezes que fazemos o sinal da Cruz estamos invocando a Santíssima Trindade. Quando fazemos o sinal da Cruz reverenciamos o Deus único e verdadeiro, Pai, Filho e Espírito Santo. E, assim, também começa a Santa Missa com a saudação inicial: “A graça de Nosso Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus-Pai e a comunhão do Espírito Santo estejam convosco”, quando pedimos que seja Bendito seja Deus que nos reuniu no amor de Cristo.

A Trindade está presente em tudo: no glória quando glorificamos ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo; bem como, no Credo, quando renovamos a nossa fé no Deus uno e trino, Pai, Filho e Espírito Santo.

Estimados irmãos,

O mistério da Santíssima Trindade é a luz que ilumina todas as verdades da fé. E é um mistério de amor profundo. A Trindade é a comunidade perfeita, a comunidade de amor pleno. O Pai criou tudo por amor; o Filho, muito amado pelo Pai constrói no mundo, com sua vida, um reino de amor, e o amor é um dos grandes dons do Espírito Santo. Assim, no Santo Evangelho de hoje(cf. Jo 3,16-18), tirado do diálogo de Jesus com Nicodemos, recorda o imenso amor de Deus pelas criaturas, pelos homens e pelas mulheres, um amor tão grande, tão sublime, tão profundo que vence a barreira do pecado e da morte à custa do sangue derramado de seu próprio Filho. Um amor inaudito que quer ter todas as criaturas junto a si, participando de sua feliz vida eterna.  Deus nos ama de tão maneira que nos enviou o Espírito Santo em auxílio da fraqueza e da miséria de nossa fé, completando o nosso coração de esperança, avivando a fé em Jesus, o Redentor, revestindo de tal maneira nossa vida a ponto de que é Ele que reza em nós e em nós rende louvores e graças a Deus. Deus Pai já não olha para o nosso pecado e ignorância, mas vê o “o próprio Espírito, que advogada por nós em gemidos inefáveis.”(Cf. Rm 8,26)

Caros irmãos,

Na primeira leitura(cf Ëx 34,4b-6.8-9)depois de ter obtido o perdão de Deus para o Povo, Moisés subiu sozinho à presença de Jahwéh. Consigo, levava as duas novas tábuas de pedra que havia talhado e sobre as quais seriam gravados os mandamentos da aliança. Precisamente aqui, o autor insere a teofania (“manifestação de Deus”). Deus aproxima-se de Moisés “na nuvem”: a nuvem, que paira a meio caminho do céu e da terra, é, no Antigo Testamento, um símbolo privilegiado para exprimir a presença do Deus que vem ao encontro do homem; ao mesmo tempo a nuvem, simultaneamente, esconde e manifesta: sugere o mistério de Deus, escondido e presente, cujo rosto o homem não pode ver, mas cuja presença adivinha. A teofania continua, depois, com uma auto-apresentação do próprio Jahwéh. Como é, então, que o próprio Deus Se define? Que é que Ele diz de Si próprio? Nesta apresentação, Deus não menciona a sua grandeza e onipotência, o seu poder e majestade; mas menciona as “qualidades” que fazem d’Ele o parceiro ideal na “aliança”: Jahwéh é o “Deus clemente e compassivo, sem pressa para se indignar e cheio de misericórdia e fidelidade” (vers. 6). Num desenvolvimento que aparece no texto bíblico, mas que a nossa leitura de hoje não conservou (vers. 7), Jahwéh fala ainda da sua misericórdia (“até à milésima geração”), que é ilimitada e desproporcional quando comparada com a sua ira (“até à terceira e à quarta geração”). Aqui, os números não significam nada e não devem ser tomados à letra: são apenas uma forma de representar a desproporcional misericórdia de um Deus, infinitamente mais inclinado para o perdão do que para o castigo. De resto, Israel é convidado a descobrir e a comprometer-se com esse Deus que é sempre fiel aos seus compromissos e solidário com todos aqueles que d’Ele necessitam.

A questão essencial é esta: Deus ama o seu Povo e cuida dele com bondade e ternura. A sua misericórdia é ilimitada e, aconteça o que acontecer, irá sempre triunfar. Israel, o Povo da aliança, pode estar tranquilo e confiante, pois Jahwéh, o Deus do amor e da misericórdia, garante a sua eterna fidelidade a esses atributos que caracterizam o seu ser. Moisés responde a esta apresentação com as petições habituais: que Jahwéh continue a acompanhar o seu Povo em caminhada da terra da escravidão para a terra da liberdade; que Jahwéh entenda a dureza do coração do Povo e que perdoe os seus pecados; que Jahwéh renove a eleição (vers. 9). E Deus, confirmando a sua auto-apresentação (Deus de amor e de bondade, lento para a ira e rico de misericórdia), não só perdoa o Povo, como até lhe propõe a renovação da aliança (vers. 10).

Deus é sempre, para o homem, o mistério que a “nuvem” esconde e revela: detectamos a sua presença, mas sem O ver; percebemos a sua proximidade, sem conseguirmos definir os contornos do seu rosto. A ânsia do homem em penetrar o mistério de Deus leva-o, com frequência, a inventar rostos de Deus; mas, muitas vezes, esses rostos são apenas a projeção dos sonhos, dos anseios, das necessidades e até dos defeitos dos homens e têm pouco a ver com a realidade de Deus. Para entrarmos no mistério de Deus, é preciso estabelecermos com Ele uma relação de proximidade, de comunhão, de intimidade que nos leve ao encontro da sua voz, dos seus valores, dos seus desafios (“subir ao monte”).

Nesta leitura Deus Se apresenta, fundamentalmente, Ele Se define como o Deus da relação e da comunhão. Deixa claro que é um Deus “com coração” – e com um coração cheio de amor, de bondade, de ternura, de misericórdia, de fidelidade. Apesar de o seu Povo ter violado os compromissos que assumiu, Deus não só perdoa o pecado do Povo, mas propõe o refazer da “aliança”: é que, acima de tudo, este Deus do amor preza a comunhão com o homem: o seu objetivo é integrar os homens na família de Deus.

Deus, da sua parte, faz tudo para viver em comunhão com o homem. No entanto, respeita, de forma absoluta, a liberdade do homem.

Prezados irmãos,

A Primeira Carta aos Coríntios (que criticava alguns membros da comunidade por atitudes pouco condizentes com os valores cristãos) provocou uma reação extremada e uma campanha organizada no sentido de desacreditar Paulo. Este, informado de tudo, dirigiu-se apressadamente para Corinto e teve um violento confronto com os seus detratores. Depois, retirou-se para Éfeso. Tito, amigo de Paulo, fino negociador e hábil diplomata, partiu para Corinto, a fim de tentar a reconciliação. Paulo, entretanto, partiu para Tróade. Foi aí que reencontrou Tito, regressado de Corinto. As notícias trazidas por Tito eram animadoras: o dissenso fora ultrapassado e os coríntios estavam, outra vez, em comunhão com Paulo. Reconfortado, São Paulo escreveu uma tranquila apologia do seu apostolado, à qual juntou um apelo em favor de uma coleta para os pobres da Igreja de Jerusalém. Esse texto é a nossa Segunda Carta de Paulo aos Coríntios. Estamos nos anos 56/57. O texto de hoje é, precisamente, a conclusão da Segunda Carta de Paulo aos Coríntios. Se compararmos esta despedida com a da Primeira Carta aos Coríntios (cf. 1 Cor 16,19-24), ela surpreende-nos pela brevidade, frieza e impessoalidade. Não parece a despedida de uma “carta de reconciliação”, mas antes uma despedida entre partes que conservam uma certa tensão na sua relação.

Na segunda leitura – Cf. 2Cor 13,11-13, São Paulo começa por deixar algumas recomendações de caráter geral aos membros da comunidade. Pede-lhes que sejam alegres; que procurem, sem desistir, chegar à perfeição; e que, nas relações fraternas, se animem mutuamente, tenham os mesmos sentimentos e vivam em paz. São conselhos que devem ser entendidos no contexto das dificuldades e tensões vividas recentemente pela comunidade. O mais notável desta carta é, contudo, a fórmula final de saudação: “a graça do Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus e a comunhão do Espírito Santo estejam convosco”. Esta fórmula – a mais claramente trinitária de todo o Novo Testamento – é, certamente de origem litúrgica. Provavelmente, era a fórmula que os cristãos utilizavam quando, no contexto da celebração eucarística, trocavam a saudação da paz.
Esta fórmula constitui uma impressionante confissão de fé no Deus trino. Ela manifesta a fé dos crentes nesse Deus é amor e, portanto, que é “família”, que é comunidade. Ao utilizarem esta fórmula, os batizados se reconhecem como membros dessa “família de Deus”; e reconhecem também que ser “família de Deus” é fazerem todos parte de uma única família de irmãos. São, portanto, convocados para viverem em unidade: em comunhão com Deus e em união com todos os irmãos.

A comunidade cristã é convidada a descobrir que Deus é amor. A fórmula “Pai, Filho e Espírito Santo” expressa essa realidade de Deus como amor, como família, como comunidade. Os membros da comunidade cristã, que pelo batismo aderiram ao projeto de salvação que Deus apresentou aos homens em Jesus e cuja caminhada é animada pelo Espírito, são convidados a integrarem esta comunidade de amor. O fim último da nossa caminhada é a pertença à família trinitária. Esta “vocação” deve expressar-se na nossa vida comunitária. A nossa relação com os irmãos deve refletir o amor, a ternura, a misericórdia, a bondade, o perdão, o serviço, que são as consequências práticas do nosso compromisso com a comunidade trinitária.

Caros irmãos,

São João é o evangelista abismado na contemplação do amor de um Deus que não hesitou em enviar ao mundo o seu Filho, o seu único Filho, para apresentar aos homens uma proposta de felicidade plena, de vida definitiva; e Jesus, o Filho, cumprindo o mandato do Pai, fez da sua vida um dom, até à morte na cruz, para mostrar aos homens o “caminho” da vida eterna… No dia em que celebramos a Solenidade da Santíssima Trindade, somos convidados a contemplar, com João, esta incrível história de amor e a nos espantar com o peso que nós – seres limitados e finitos, pequenos grãos de pó na imensidão das galáxias – adquirimos nos esquemas, nos projetos e no coração de Deus.

O amor de Deus se traduz na oferta ao homem de vida plena e definitiva. É uma oferta gratuita, incondicional, absoluta, válida para sempre; mas Deus respeita absolutamente a nossa liberdade e aceita que recusemos a sua oferta de vida. No entanto, rejeitar a oferta de Deus e preferir o egoísmo, o orgulho, a auto-suficiência, é um caminho de infelicidade, que gera sofrimento, morte, “inferno”.

Nós, os batizados, devíamos ser as testemunhas desse Deus que é amor; e as nossas comunidades cristãs ou religiosas deviam ser a expressão viva do amor trinitário.

Irmãos e Irmãs,

A proposta de Deus nasce de amor, explicita-se na encarnação e morte de Jesus, e tem por finalidade dar a todos a vida eterna. O homem e a mulher, em resposta ao chamado de Deus, consiste em aceitar ou não aceitar a missão de Jesus, o Filho. Aceitar ou não exige uma decisão pessoal, de adesão ao Evangelho da libertação e da vida nova. Jesus garantiu que o Espírito Santo nos ajudaria a conhecer a Verdade e a discernir as coisas. A decisão passa pela adesão ao Cristo Ressuscitado, o Redentor e Salvador, através de uma adesão misteriosa e amorosa de docilidade ao Reino e ao Seguimento do Cristo.

Deus uno e trino que é indivisível. Indivisível, mas amoroso e generoso na comunhão amorosa e eterna com a Trindade, devemos construir uma vida do amor, com amor e para amar, como Cristo nos amou e amou a sua Igreja. Sim, a solenidade da Santíssima Trindade, nos convida a buscar e viver a integração da unidade na pluralidade em todos os sentidos.

Que a Trindade, Pai, Filho e Espírito Santo acompanhe sempre as nossas vidas e nos ajude a fazer a experiência amorosa de Deus. Vem Trindade Santa, caminha conosco e nos dê a sua paz! Amém!

Escrito por: Padre Wagner Augusto Portugal