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Mt 11,25-30

Naquele tempo, Jesus pôs-se a dizer:
25'Eu te louvo, ó Pai, Senhor do céu e da terra,
porque escondeste estas coisas aos sábios e entendidos
e as revelaste aos pequeninos.
26Sim, Pai, porque assim foi do teu agrado.
27Tudo me foi entregue por meu Pai,
e ninguém conhece o Filho, senão o Pai,
e ninguém conhece o Pai, senão o Filho
e aquele a quem o Filho o quiser revelar.
28Vinde a mim todos vós que estais cansados
e fatigados sob o peso dos vossos fardos,
e eu vos darei descanso.
29Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim,
porque sou manso e humilde de coração,
e vós encontrareis descanso.
30Pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve.
 


23 de junho - Solenidade do Sagrado Coração de Jesus

Comecemos este dia com um pouco de história: a devoção católica ao Coração de Jesus foi iniciada com os místicos dos séculos XI e XII, que encorajavam os fiéis a meditar sobre a Paixão do Senhor, a venerar as sagradas chagas e a refugiar-se no coração aberto pela lança do soldado(Cf. Jo 19,34). São Boaventura pode ser considerado um dos maiores místicos devotos do Coração de Jesus.  A primeira igreja dedicada ao Coração de Jesus foi edificada em 1585 no Brasil. Com São João Eudes, à partir do século XVII, e de Santa Margarida Maria Alacoque, que teve visões de Jesus com o coração flamejante à vista sobre o peito, como são as imagens do Coração de Jesus de nossos dias. Essa devoção, diante do jansenismo, pregara à universalidade da graça, isto é, que Deus é misericordioso para com todos, que se encarnou para salvar a todos os homens e mulheres, que não há pecado no mundo que não possa ser perdoado pelo sangue redentor de Cristo. A festa de hoje foi instituída, oficialmente, somente em 1856 sob o pontificado do Papa Pio IX e o Sumo Pontífice Leão XIII consagrou o mundo ao Sagrado Coração de Jesus. Já o Papa Pio X prescreveu que a consagração ao Coração de Jesus fosse renovada todos os anos, diante do Santíssimo Sacramento exposto. A Ladainha do Coração de Jesus, o mês de junho particularmente dedicado a esta devoção, e o nascimento do Apostolado da Oração com os seus zeladores, zeladores as intenções que mês a mês, com o Sumo Pontífice vamos rezando.

Celebramos a solenidade do Sagrado Coração de Jesus.  Nas suas duas dimensões queremos bendizer as maravilhas que o Coração do Cristo nos presenteia:  em primeiro lugar a misericórdia de Deus encarnada em Jesus de Nazaré e, em segundo lugar, a reparação pelos pecados individuais e da sociedade.

Ligada a festa de Jesus Bom Pastor, segundo antiguíssima tradição, a Igreja celebrava a dimensão da misericórdia. É Jesus, o Bom Pastor, que conhece as ovelhas e as chama pelo nome, o pastor que procura a ovelha perdida, o pastor que coloca ternamente a ovelha encontrada nos ombros, o pastor que faz festa por ter recuperado a ovelha, o pastor que dá a vida pelas ovelhas. Por isso é bom sempre lembrarmos que a ovelha simboliza a criatura humana, que é pecadora, buscada e encontrada por Jesus e sempre de novo perdoada por Ele.

A reparação, desenvolvida pela teologia, à medida que se foi compreendendo que, assim como Jesus ofereceu a sua vida em resgate dos pecados cometidos pelas criaturas humanas, também nós podemos “pagar” os pecados do próximo, podemos ser, em uma linguagem familiar, a vassoura de limpeza, e podemos apresentar a Deus, amor, onde há ódio e vingança; pureza de coração, onde há devassidão e ganância; piedade e adoração, onde há desprezo e ateísmo.

Meus caros irmãos,

Gostaria de ressaltar nesta solenidade duas dimensões fundamentais: a HUMILDADE e a MANSIDÃO. Essas dimensões que o Coração do Cristo se nos apresenta são características fundamentais da Vocação Cristã. Por isso, São Mateus, em seu Evangelho de hoje 11, 25-30, nos apresenta a auto-revelação de Jesus sobre a sua origem divina, a sua missão aqui na terra e o caminho que a criatura humana deve percorrer para revestir-se da misericórdia de Deus e entrar em comunhão com o Senhor. Jesus nos ensina que o seu coração é “manso e humilde”. Quando Jesus fala que o seu coração é manso e humilde é Ele inteiro que encarna a mansidão e a humildade. À semelhança dos mestres do seu tempo, Jesus anda rodeado pelos seus discípulos a quem revela a paternidade divina, isto é, que Deus é Pai, sobretudo de Jesus e, por meio d´Ele, dos crentes. É o máximo que se pode dizer da relação de Deus com os homens e dos homens com Deus. Ao contrário do que acontecia, Jesus não recruta os seus seguidores entre os sábios e poderosos do seu tempo, mas entre os pequenos e humildes, aqueles que efetivamente esperam o Reino e estão dispostos a acolhê-lo. Jesus introduzir os seus discípulos na compreensão do Mistério de Deus, descobrindo assim o segredo da alegria e da verdadeira felicidade.

E São Paulo tem razão ao pedir aos Efésios que tenham “humildade e mansidão”, porque elas são características da vocação cristã(cf. Ef 4,1-2). Se Jesus se apresenta cheio de ternura e manso de coração, ou seja, humilde, os homens e mulheres deveriam ser reconhecidos pela sua vida humilde, pacífica, terna, simples, de um coração compreensivo para com todos. Para compreender a pessoa de Jesus temos que entender as categorias de sua humildade e de sua mansidão, no seu agir, no seu comportamento, na sua pregação, na sua conduta de redentor e salvador da Humanidade. Por isso o Coração de Jesus não exclui ninguém. É na acolhida ao outro que o Cristo nos ensina a vivermos em comunidade.

Prezados irmãos,

A Primeira Leitura(Cf. Dt 7,6-11) diz “Tu és um povo consagrado ao Senhor, teu Deus” (v. 6). Esta definição é feita pelo profeta no contexto da pregação do mandamento capital: “Escuta, Israel! O Senhor, nosso Deus, é o único Senhor!” (6, 4). O povo violou este mandamento aceitando divindades cananeias. Daí a catástrofe do exílio. O autor sagrado coloca na boca de Moisés o discurso que os profetas faziam desde o século VIII a. C. Trata-se simultaneamente de uma denúncia e de uma promessa: Israel não está a morrer, mas no transe para renascer como novo povo de Deus, preparando-se para entrar na terra prometida. Conhecida a própria identidade, – ser um povo consagrado ao Senhor – há que viver em consonância com ela. A libertação, e a escolha feita por Deus, devem-se unicamente ao Seu amor. A resposta de Israel só pode ser amar o Senhor, fazendo a sua vontade, expressa nos mandamentos.

Na Segunda Leitura(Cf. 1Jo 4,7-16) relata que Deus é amor em Si mesmo, e é a verdadeira fonte do amor para nós. O único caminho para chegar a Deus é o amor. O amor de Deus foi-nos mostrado em Cristo, para nossa salvação. São João afirma que, pela sua fé, teve a felicidade de reconhecer presente no mundo, na Pessoa de Jesus, o amor de Deus. Levar os outros homens a descobrir este amor de Deus presente no mundo, é missão de todo o cristão. É através do testemunho do nosso amor fraterno, através da nossa doação efetiva aos outros, que podemos levar os homens a acreditar no amor de Deus, que enviou ao mundo o seu Filho.

O Coração de Jesus é o que há de mais profundo na humanidade assumida pelo Verbo. É o “ponto” onde toda a humanidade de Jesus se recolhe e encontra com a divindade, realizando, assim, o grande mistério de Deus feito homem. Se toda a humanidade de Jesus é o sacramento primordial da salvação, o seu Coração é-o de modo muito especial.

Porque é que a Igreja nos propõe o Coração como sinal concreto do amor divino-humano de Jesus, como expressão mais evocadora do amor com que Deus nos ama? Porque, na Bíblia, o coração é a parte mais nobre e mais importante do homem. É o “núcleo íntimo da pessoa”, sede da sua vida espiritual, lugar por excelência do encontro com Deus. Do coração nasce o que inquina o homem, mas também o que o santifica. O coração representa, pois, aquilo que, hoje, chamamos o “eu” profundo, o “eu” secreto. No culto ao Coração de Jesus, honramos toda a pessoa do Redentor e somos conduzidos à fonte dos seus sentimentos e das suas ações salvíficas. Esta concentração de interesse à volta do Coração de Jesus remonta já ao Novo Testamento, ao momento da morte de Cristo. S. João, com a extraordinária – e, quase diríamos, desproporcionada – importância que dá à transfixão de Jesus na cruz, abre o caminho que conduzirá à contemplação do Lado aberto e ao culto do Coração de Jesus. O seu comentário ao episódio: “Hão-de olhar para aquele que trespassaram”, revelar-se-á uma profecia.

Para nós, hoje, o coração já não representa o que representava para o homem bíblico. Todavia ainda encontramos na linguagem comum e no sentimento popular expressões que se aproximam do conceito bíblico: “tem bom coração”, “tem mau coração”, “é um homem de coração”. Hoje, as funções mais nobres do homem são atribuídas ao cérebro, à inteligência, à vontade. Mas ainda há uma coisa que nos ajuda a compreender, por analogia, o significado do Coração de Jesus: o coração é o motor de todo o corpo; a vida e a morte são assinaladas por ele; está presente em todo o organismo e fá-lo vibrar com o seu próprio movimento; a ele aflui o sangue venoso, que é regenerado, reciclado e reenviado a todos os membros do corpo. É o que faz, a nível espiritual, o Coração de Jesus no grande corpo que é a Igreja! No Coração de Jesus aconteceu a primeira purificação de todos os pecados, a regeneração da esperança e do amor humano. Todo o perdão, toda a graça, toda a inspiração, toda a esperança e toda a alegria, todo o impulso de unidade e de fraternidade que experimentamos na nossa vida, parte do centro que é o Coração de Jesus. Foi esse o desígnio do Pai: que nele habitasse “toda a plenitude”, graça sobre graça (cf. Col 2, 9; Jo 1, 16). A razão de tudo isto é que, naquele Coração, sobre a cruz, se consumou um ato de obediência total e perfeita a toda a vontade de Deus; por isso, Deus O exaltou e colocou nas suas mãos a salvação de todos os homens. O Coração de Jesus é a mina em que se encontram “todos os tesouros da sabedoria e da ciência” (cf. Col 2, 3).

Caros irmãos,

O amor de Deus por todos os viventes é UNIVERSAL. Se a vida tem os seus percalços, as suas dificuldades, os seus problemas, e Deus tem consciência disso, devemos olhar o amor de Deus por nós, que nos acolhe, que nos ama e que nos dá a força necessária para passarmos pela noite escura. Jesus é  Vida, que nos faz compreender as coisas certas. Jesus é a Verdade, para nos fazer encurtar distâncias. Jesus é o Caminho, desde que contemplemos o seu coração humilde e simples. Só pode contemplar o Coração do Cristo aqueles e aquelas que tem a largura, o comprimento e a altura do amor de Cristo derramado sobre todas as criaturas, tornando-as participantes da plena comunhão com Deus. No pleno amor e na comunhão nós contemplamos o Sagrado Coração de Jesus, a “fornalha de amor”, que destrói nossos pecados, que brota o fogo divino redentor que Jesus veio trazer à terra e que gostaria que incendiasse o mundo.

Ninguém está excluído da salvação. Ninguém está excluído da redenção. Por isso o Coração do Cristo nos pede é que sejamos como as crianças: sem maldade, sem orgulho da auto-suficiência, sem a exigência violenta de quem se julga dono do mundo.

Escrito por: Padre Wagner Augusto Portugal