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Mt 5,1-12a

Naquele tempo:
1Vendo Jesus as multidões,
subiu ao monte e sentou-se.
Os discípulos aproximaram-se,
2e Jesus começou a ensiná-los:
3"Bem-aventurados os pobres em espírito,
porque deles é o Reino dos Céus.
4Bem-aventurados os aflitos,
porque serão consolados.
5Bem-aventurados os mansos,
porque possuirão a terra.
6Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça,
porque serão saciados.
7Bem-aventurados os misericordiosos,
porque alcançarão misericórdia.
8Bem-aventurados os puros de coração,
porque verão a Deus.
9Bem-aventurados os que promovem a paz,
porque serão chamados filhos de Deus.
10Bem-aventurados os que são perseguidos
por causa da justiça,
porque deles é o Reino dos Céus.
11Bem-aventurados sois vós, 
quando vos injuriarem e perseguirem,
e, mentindo, disserem todo tipo de mal contra vós,
por causa de mim.
12aAlegrai-vos e exultai,
porque será grande a vossa recompensa nos céus.


02 de novembro - Solenidade de todos os Fiéis Defuntos

“Oh morte, onde está a tua vitória!” (1Cor 15,55b)

Celebramos, dia 2 de novembro, a esperança cristã. Relembrando da única realidade certa de nossa vida, a morte, somos todos convidados a refletir sobre a nossa existência neste mundo, a nossa conduta, a nossa religiosidade e o que apresentaremos ao Deus da Vida no dia do Juízo.

Em Finados, celebramos a liturgia da esperança cristã. Isso porque todos nós temos que contemplar a irmã morte como a companheira certa, depois de combater o bom combate e terminar a carreira, esperando levar pelo menos a fé até Nosso Redentor. Tudo isso dentro da esperança cristã de que a vida não é tirada, mas continuamente transformada, relembrando o Prefácio da Liturgia dos Fiéis Defuntos.

Ora, se Jesus Cristo ressuscitou para a nossa salvação, a morte não é o fim, mas o começo da vida em Deus, com Deus e para Deus. Vivemos permeados pela presença amorosa de Cristo e morremos na esperança de que Ele nos acolherá, com misericórdia e candura, nos seus braços generosos.

Por isso, é muito importante traduzir o Mistério de Deus e a completude da existência.

A primeira leitura de hoje nos relembra uma expressão muita cara à minha caminhada: “Sentir-se na palma da mão de Deus” (Sb 3,1). Esse estar “palma da mão de Deus” é sentir-se protegido, observado atentamente, no côncavo que se forma a anatomia humana da mão ao segurar algo. Esse recolhimento na mão de Deus não nos permite aproximarmos do abismo, porque ela [a mão] se transforma, então, num espaço ilimitado, é um todo que nos guarda sob o olhar divino.

E, como São Paulo nos exorta, a caminhada e a existência cristã é, nada mais, nada menos, o estar unido com Cristo na Ressurreição, o que é simbolizado pelo batismo, que nos purifica do pecado e nos torna amigos do Salvador do gênero humano. Unido com Cristo, na participação dos Santos Sacramentos, na vivência de sua Palavra, na prática das virtudes que enriquecem nossa alma… sempre sob o olhar de Deus, na palma de Sua mão.

Irmãos e irmãs,

A Igreja sempre nos convidou a refletir sobre a realidade da morte.

Por que isso?

Porque a morte é a memória da ressurreição.

Hoje, somos convidados a relembrar os mortos queridos, ou os entes queridos, os familiares, nossos benfeitores já falecidos. Hoje é dia de relembrar do pároco e do bispo que nos precederam na vida eterna, que tantos benefícios distribuíram em favor de nossa santificação pessoal; a santidade, meta cristã que refletimos, ontem, na liturgia da solenidade de Todos os Santos e Santas de Deus.

Os mortos vivem em Deus; é a comunhão dos santos, que nós cremos e professamos: “Creio na comunhão dos Santos, creio na ressurreição da carne, creio na vida eterna”.

Crer na comunhão dos santos é dizer que, enquanto peregrinamos neste vale de lágrimas, vivemos (Igreja Militante) unidos pela fé com os que estão no Purgatório (Igreja Padecente), que celebramos hoje, e com os que estão no Céu (Igreja Triunfante), solenidade de 1º de novembro. E o principal que constitui essa “comum união” é o enlaçamento com Nosso Senhor Jesus Cristo, cabeça do Igreja, formando o seu Corpo Místico.

A reflexão da morte não deve, portanto, ser a partir do sentimento de desolação da perda, de um fim, mas um doce começo da mais importante fase da vida: quando se inicia a sua plenitude, a vida eterna, contemplando o Absoluto face a face. Mortos para o mundo, vivificamos para a vida plena.

Chorar a morte dos entes queridos é da natureza humana. Até Cristo chorou a morte do amigo Lázaro. O consolo, todavia, encontramo-lo na certeza da ressurreição.

A morte nos leva a refletir sobre dois pontos centrais de nossa fé. Primeiro, a vida é sempre um estado de espera, desde o nascimento, ao longo do processo de crescimento e de formação, a juventude, a idade adulta, a idade avançada, sempre estamos esperando. No dia final, de tanto esperar, nós encontraremos a visão beatífica de Deus, como nova criatura destinada a viver para sempre junto de Deus. Quando morremos, segundo São João, nós nos tornamos semelhantes a Deus, porque O veremos como Ele é (1Jo 3,2).

A segunda imagem que devemos tê-la em mente é a do BATISMO. Todos nós, hoje, somos convidados a refletir e revigorar o nosso batismo. Por meio desse primeiro Sacramento morremos pela primeira vez. É a morte do homem corrompido pelo pecado original e o renascimento para a vida da graça sacramental em Cristo Jesus. A morte é, pois, parecida ao Batismo. Somos despidos da veste corruptível, que é o corpo, submerso que fica na terra, de onde ressuscitará com uma veste nova no último dia, que é o corpo glorioso da ressurreição.

Todos nós vivemos para um dia ver a Deus, um dia estar com Deus no absoluto, porque São Paulo já cantou: “Para mim, morrer é lucro, o importante é estar em Deus, o Salvador!” (Fil 1,21).

Irmãos e irmãs,

A morte para o cristão é a pedra de toque de sua vida. O arcebispo de São Salvador, Dom Lucas Cardeal Moreira Neves – OP, deu-nos um edificante exemplo de fé na misericórdia de Deus, a quem consagrou a sua vida: “Vultum tuumn, Domine, quæsivi”, inspirado, certamente, em Santo Anselmo, nas suas lucubrações sobre a existência de Deus. Rezava o venerando Cardeal: “Passei a minha vida na busca do rosto sereno e radioso do meu Senhor. Agora o encontrei.”

Na esperança desse encontro, alimentados pela esperança de tantos que, como Dom Lucas, desfrutam dessa vivência eterna com Deus, rezemos pelos mortos.

Nesta Igreja Particular, especialmente, rezemos pela alma de Dom Justino José de Santana, nosso venerando primeiro bispo diocesano; pela alma de Dom Geraldo Maria de Morais Penido, nosso segundo bispo e primeiro arcebispo; pela alma de Dom Juvenal Roriz, nosso segundo arcebispo;  pelos padres, religiosos, religiosas e fiéis leigos que ajudaram a construir a grande Igreja de Deus, plantada com tanto suor nas terras que envolvem o Rio Paraibuna e que, fieis ao Batismo, encaminharam os corações para ver a Deus.

Que, do Céu, a Igreja Triunfante se una a esta Igreja Militante para que, na comunhão dos santos, unamo-nos à Igreja Padecente em seu sufrágio e obtendo dela a participação nessa tríplice comunhão, na esperança de podermos, também, um dia, alcançarmos a plenitude da vida em Cristo Ressuscitado.

Repito, a esperança cristã nos diz que nossa vida continuará após a morte, quando seremos transformados e obteremos um corpo glorioso. Assim, o homem e a mulher, como um todo, ressuscitam e participam da alegria e da paz eterna. Dificuldades em aceitar a morte são naturais à natureza humana. Mas urge nos despirmos da tristeza e, repletos de esperança cristã, com doce alegria, rezarmos para que todos nos encontremos reunidos na casa do Pai.

Essa é a nossa fé e é essa a nossa maior esperança.

Que as almas dos fiéis defuntos, pela misericórdia de Deus, descansem em paz!

Amém!

Escrito por: Pe Wagner Augusto Portugal