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Mc 1,1-8

1Início do Evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus.
2Está escrito no livro do profeta Isaías:
'Eis que envio meu mensageiro à tua frente,
para preparar o teu caminho.
3Esta é a voz daquele que grita no deserto:
'Preparai o caminho do Senhor,
endireitai suas estradas!''
4Foi assim que João Batista apareceu no deserto,
pregando um batismo de conversão
para o perdão dos pecados.
5Toda a região da Judéia e todos os moradores de
Jerusalém iam ao seu encontro.
Confessavam os seus pecados
e João os batizava no rio Jordão.
6João se vestia com uma pele de camelo
e comia gafanhotos e mel do campo.
7E pregava, dizendo:
'Depois de mim virá alguém mais forte do que eu.
Eu nem sou digno de me abaixar
para desamarrar suas sandálias.
8Eu vos batizei com água,
mas ele vos batizará com o Espírito Santo.'


10 de dezembro - 2º Domingo do Advento

Irmãos e irmãs,

Caminhamos, na meditação da Sagrada Liturgia, em busca da contemplação, na esperança da salvação. A partir deste segundo domingo do Advento, a perspectiva escatológica de nossa existência é iluminada desde a sua “fonte”, ou seja, a primeira vinda de Cristo. Enquanto no primeiro domingo meditávamos acerca da segunda vinda de Cristo, após um esboço apresentado pelo escritor sagrado de uma visão escatológica do dia de hoje à luz da segunda vinda, nas demais semanas do Advento recordamos e contemplamos o acontecimento definitivo da primeira vinda. Na primeira vinda do Cristo está arraigado o sentido definitivo de nosso existir: é o momento fundador. Jesus Cristo é o início e o fim de toda a existência humana. Jesus Cristo é o alfa e o ômega (Ap 22,13).

A chegada deste momento fundador é a grande notícia da História, a boa-nova por excelência. O Evangelho Marcos, cognominado o querigmático, vê como início desta boa-nova o apelo à conversão, lançado por João no Evangelho, realizando plenamente o que Isaías prefigurou quando, pelo fim do exílio babilônico (ano de 535 a.C.), conclamou o povo para preparar um caminho para Deus, que reconduziria os cativos.

Era, pois, um apelo à conversão, pois deviam preparar a volta, “voltando” (= convertendo-se) para Deus, quando determinara o fim do castigo (Is 40,2), como ouvimos na primeira leitura.

Deus reconduz os cativos. Ele mesmo vai com eles. Como um imperador na entrada gloriosa (parusia), ele se faz preceder pelos frutos de suas conquistas: o povo resgatado (40,10). Como um pastor, reúne suas ovelhas. E, com que ternura, leva os cordeirinhos nos braços e conduz devagarzinho as ovelhas que amamentam! (40,11)

Meus irmãos,

São Marcos inicia o seu Evangelho(cf. Mc 1,1-8) com a figura da pregação de João Batista, o precursor. Marcos é o único Evangelista que começa a sua pregação já com o tema que se tornará central na pregação de Jesus e dos Apóstolos: a conversão. E uma conversão que está ligada a “Jesus Cristo, Filho de Deus” (Mc 1,1). Tudo se inicia, se desenvolve e tem um fim em Jesus Cristo, o Alfa e o Ômega, o início e o fim de toda a humanidade.

São Marcos, em duas palavras, anuncia a origem do Messias: é da terra e tem um nome, Jesus; e é o enviado, o escolhido do Senhor (Cristo) e é mais do que alguém que fala em nome de Deus (=profeta): é o próprio Filho de Deus. Pouco mais à frente, ainda no primeiro capítulo (Mc 1,15), São Marcos diz o porquê devemos nos converter. Devemos nos converter porque é chegado o Reino de Deus, o novo modo de viver, que abrange a criatura humana em toda a sua plenitude e Deus na pessoa de Jesus de Nazaré.

Lembramos que Marcos é o primeiro evangelista, é de sua autoria o texto mais antigo acerca da vida, da obra e do mandato de Cristo. O seu Evangelho foi escrito, provavelmente, entre os anos de 65 a 70 da era cristã. Portanto, as mais remotas aspirações do cristianismo nele podemos absorver: a conversão, a caridade, a confiança na Palavra de Deus.

Queridos irmãos,

A mesma palavra que abre o Evangelho de João é a mesma palavra que abre o Livro de Gênesis: o princípio, o alfa, ou seja, a criação. Nos primeiros versículos do Gênesis, o escritor inspirado relata a criação do mundo; nos primeiros versículos do Evangelho de São Marcos, Jesus Cristo, aquele que veio resgatar a humanidade decaída, desde o Gênesis, é apresentado como a fonte da criação. E ao longo do livro, o querigmático anuncia que Jesus não só está no princípio, mas é também o centro da nova Família de Deus e permanecerá para sempre com ela. Mesmo depois da Ascensão, ele se conservará no meio da comunidade, vivo e atuante. Três vezes o Apocalipse põe na boca de Jesus: “Eu sou o primeiro e o último, sou o princípio e o fim” (cf. 1, 8; 21,6; 22,13).

São Marcos nos dá a finalidade da obra de Jesus: Evangelho – palavra que significa a boa-nova, a boa notícia. Jesus – nome hebraico que significa “Deus salva”. Cristo – outra palavra grega, que significa “ungido para ser rei”. Portanto, Filho de Deus é a verdade central do Evangelho, que é, assim digamos, a boa-nova que Jesus trouxe à humanidade e as boas-novas sobre a pessoa e os ensinamentos do Filho de Deus, Salvador e Rei.

São Marcos nos ensina que é Deus quem toma a iniciativa da salvação. É Deus quem manda o seu filho Jesus a este mundo. Deus quem manda o mensageiro para anunciar a chegada do Messias.

Por isso, Deus quer nos mandar um recado especial neste advento: devemos voltar o nosso coração e a nossa mente para Ele, isto é, converter-nos, fazer coincidir os caminhos de Deus com os nossos caminhos; fazer coincidir o coração de Deus com o nosso coração. Que nós tenhamos os nossos sentimentos voltados aos sentimentos da Trindade Santíssima.

Caríssimos irmãos,

João Batista nos é apresentado hoje como deve ser cada um dos batizados. João Batista está atento aos acontecimentos, abrindo caminhos, endireitando estradas, falando de penitência e conversão, purificando o povo. João Batista é o Símbolo do homem vigilante, é o exemplo de pessoa pronta para receber a boa-nova do Messias. No último profeta encontramos as qualidades de quem está preparado para abraçar os novos tempos, a nova realidade dentro da história da salvação.

Antes de tudo, o desprendimento, manifestado na sobriedade do comer e do vestir (Mc 1,6). Em segundo lugar, a humildade diante da pessoa e do mistério de Jesus, manifestada na afirmação de não ser digno de ser seu escravo (Mc 1,7). Desprendimento que é transformado em oferta humilde de entusiasmo pela causa de Jesus (Mt 1,4-5). Assim, o verdadeiro profeta é alguém cheio de Deus e que fala de Deus. João Batista é o último profeta do Antigo Testamento, o primeiro a anunciar a plenitude dos tempos (Gl 4,4) com a chegada do Messias.

Ora, João Batista se vestia com pele de camelo, como Elias se vestira (2Rs 1,7). João Batista andava com um cinto de couro à cintura, para demonstrar a sua sobriedade, pureza, sempre aberto à voz do Senhor, pronto para aonde Deus quisesse (Lc 12,35). João comia gafanhotos e mel do campo para significar que se alimentava de alimentos fortes, obtendo saúde necessária para ser o arauto do Salvador.

João anunciou: “Preparai o caminho do Senhor, endireitai suas estradas” (Mc 1,3).  Revestido de autoridade, ou seja, agindo em nome de Deus, o Batista anuncia a derrota do mal e do pecado. O mel, encontrável em abundância no deserto, é o símbolo reluzente da palavra de Deus (Sl 19,11). Ao alimentar-se, portanto, da palavra de Deus, com a força deste alimento, transmite-se ao povo a chegada daquele que é a Palavra de Deus encarnada, a Palavra Eterna, o Cristo.

Queridos irmãos,

Para aderir, para seguir, para ser discípulo, para ser arauto de Cristo é preciso, primeiro, a confissão dos pecados, a conversão do coração e da vida (Mc 1,4).  Conversão significa mudar por inteiro de direção, mudar o modo de pensar, voltar-se para Deus. A criatura humana saiu pura do sopro de Deus e somente pura pode voltar a ele. Precisamos, com grande entusiasmo, ter coragem e ardor para mudar o comportamento, mudar o modo de pensar e de agir, para dar testemunho do modo de pensar, de comportar-se e de agir de Jesus. Devemos dar uma guinada em nossa vida para que a sua meta seja Jesus Cristo.

O batismo para João foi de água, mas ele anunciava que “um batizará com o Espírito Santo” (Mc 1,8). Ele acenava para Jesus, para quem o Espírito Santo, descido em forma visível e perene no dia de Pentecostes, anunciou sua divindade. É o Espírito Santo quem dá a vida sobrenatural a seus fiéis. O batismo, conforme nos ensina o Direito da Igreja, “porta dos sacramentos, em realidade ou ao menos em desejo necessário para a salvação, pelo qual os homens se libertam dos pecados, são de novo gerados como filhos de Deus e incorporados à Igreja, configurados com Cristo por caráter indelével, só se administra validamente pela ablução com água verdadeira, juntamente com a devida forma verbal” (Cânon 849 do Codex Iuris Canonici).

O “estilo de vida” de São João Batista constitui uma interpelação pelo menos tão forte como as suas palavras. É o testemunho vivo de um homem que está consciente das prioridades e não dá importância aos aspectos secundários da vida – como sejam a roupa “de marca” ou a alimentação cuidada. A nossa vida também está marcada por valores, nos quais apostamos e à volta dos quais construímos toda a nossa existência… Quais são os valores fundamentais para mim, os valores que marcam as minhas decisões e opções? São valores importantes, decisivos, eternos, capazes de me dar vida e felicidade, ou são valores efémeros, particulares, egoístas e geradores de dependência e escravidão? Como nos situamos frente a valores e a um estilo de vida que contradiz, claramente, os valores do Evangelho? Ao acentuar o caráter decisivo e determinante do apelo de João, Marcos convida-nos a uma resposta objetiva, franca, clara e decidida. Não podem existir meias tintas ou tentativas de protelar a decisão… Estamos ou não dispostos a dizer “sim” aos apelos de Deus? Estamos ou não dispostos a aceitar a sua proposta de “metanoia”? Não chega dizer “talvez” ou “sim, mas…”. Deus espera uma resposta total, radical, decidida, inequívoca à oferta de salvação que Ele faz. Isso significa uma renúncia decidida ao nosso comodismo, à nossa preguiça, ao nosso egoísmo, à nossa autossuficiência e um embarcar decidido na aventura do Reino que Jesus, há mais de dois mil anos, veio propor aos homens…

Prezados irmãos,

Na primeira leitura(cf, Is 40,1-5.9-11) o profeta é, pois, enviado por Deus a anunciar “ao coração de Jerusalém” que a “consolação” do Senhor está próxima (vers. 1). A imagem do “falar ao coração” sugere a relação de amor entre Deus e o seu Povo, entre o amado e a amada. Deus “fala ao coração” do seu Povo, com amor e ternura, a fim de o consolar. Em que consiste essa “consolação”? Consiste, em primeiro lugar, no anúncio do perdão de Deus (vers. 2). Os exilados estavam convencidos de que a dolorosa experiência do Exílio era o castigo para os pecados cometidos pelo Povo de Judá. Viviam angustiados, afogados em sentimento de culpa, sentindo-se em transgressão, indignos, pecadores e afastados de Deus. Neste contexto, Deus diz-lhes: o tempo da ruptura e do afastamento terminou e chegou o tempo do reencontro, o tempo de refazer a comunhão e a Aliança.

O profeta utiliza, para expressar esta mensagem de perdão, duas imagens: A primeira é uma imagem ligada ao universo militar: o tempo de serviço que o Povo foi obrigado a cumprir já terminou (a palavra utilizada pelo profeta designa com frequência, na língua hebraica, o tempo de vassalagem forçada, o tempo obrigatório de serviço no exército); a segunda é uma imagem ligada ao universo cultual: o castigo que o Povo sofreu foi aceite pelo Senhor, como se se tratasse de um sacrifício de expiação (esses sacrifícios de expiação que a liturgia de Israel tão bem conhecia e que serviam para refazer a comunhão com Deus, depois do pecado do Povo).

Ainda neste enquadramento de “consolação”, o profeta Isaías apresenta uma misteriosa voz que convida a preparar “no deserto o caminho do Senhor”, a abrir “na estepe uma estrada para o nosso Deus” (vers. 3-5). O que é que isto significa? O tema do deserto nos leva ao Êxodo, recordando esse acontecimento fundamental da história e da fé de Israel que foi a libertação do Egito e a viagem da terra da escravidão para a terra da liberdade. Devemos ter bastante claro que esta viagem que não foi apenas o percorrer um determinado percurso geográfico, mas foi sobretudo uma viagem espiritual, durante a qual o Povo fez uma experiência de encontro com Deus, amadureceu a sua fé e passou de uma mentalidade de egoísmo e de escravidão para uma mentalidade de comunhão e de liberdade.

A referência ao caminho pelo deserto sugere claramente que Deus prepara um Novo Êxodo para o seu Povo. O profeta anuncia aos exilados que Deus vai traçar um caminho fácil, direito, glorioso, triunfal, pelo qual os exilados irão passar da terra da escravidão à terra da liberdade, numa espécie de “reedição melhorada” do antigo Êxodo.

Na terceira parte, a leitura nos coloca diante de uma nova cena: um “mensageiro” (em grego: um “evangelista”) eleva a sua voz sobre uma alta montanha e proclama uma “boa notícia” a Jerusalém e às outras cidades de Judá: o Deus poderoso do Êxodo (“vem com poder, o seu braço dominará”) conduz pessoalmente o seu Povo de regresso à Terra Prometida. Ele é o Pastor que reúne o seu rebanho, que o apascenta, que cuida das ovelhas mais frágeis e as conduz “ao seu descanso”, que oferece de novo ao seu Povo a vida e a fecundidade. A referência às ovelhas mais fracas e às ovelhas recém-nascidas sublinha o amor, a ternura e a solicitude de Deus pelo seu Povo. Trata-se, sem dúvida, de uma mensagem de “consolação” destinada a acordar nos exilados a fé e a esperança.

A palavra fundamental da primeira leitura é “consolação” que nos apresenta e anuncia a esse povo amargurado, desiludido e frustrado que Deus não o abandonou nem esqueceu e que vai atuar no sentido de oferecer-lhe de novo a vida e a liberdade. O profeta nos garante que Deus não está alheio da nossa história, que Ele continua a vir ao nosso encontro e a oferecer-Se para nos conduzir com amor e solicitude ao encontro da verdadeira vida e da verdadeira liberdade.

Caros irmãos,

A segunda leitura de hoje (2Pd 3,8-14) nos anuncia que os cristãos da primeira geração esperavam uma segunda vinda de cristo para breve. Entretanto, o atraso tornava-se sempre mais notável e o escárnio do mundo sempre mais agressivo. Diante da impaciência e, quem sabe, do desespero e da desistência, que isso gerava, Pedro responde: “Deus tem tempo – ele quer que todos se convertam, para que todos possam participar”. Mas, mesmo assim, ele não desiste de seu projeto, pois ele deseja que tudo esteja em harmonia consigo. Só que ele não quer expurgar os “elementos nocivos” da criação, antes que todos tenham a oportunidade de se converter, isto é, de se tornar participantes da vida em Deus. Mas ele realizará, sem que saibamos o dia e a hora, seu “novo céu e nova terra” (2Pd 3,13) e, então, será bom estarmos de acordo com a nova realidade, pois Deus se volta para nós.

A leitura da segunda Carta de São Pedro pode ser dividida em duas partes, embora estreitamente ligadas uma à outra pelo tema da parusia (a “segunda vinda” do Senhor Jesus, no final dos tempos). A primeira integra uma reflexão (cf. 2 Pe 3,1-10) sobre o “dia do Senhor”; a segunda integra uma exortação (cf. 2 Pe 3,11-16) aos cristãos no sentido de levarem uma vida santa.

Os cristãos dos primeiros tempos estavam convencidos da iminência da chegada de Jesus para eliminar definitivamente o mal e para instaurar definitivamente o Reino de Deus. No entanto, o tempo passava e a segunda vinda do Senhor não acontecia. Os crentes estavam decepcionados e eram objeto da irrisão dos adversários. É neste contexto que a leitura de hoje nos situa. O apóstolo explica sumariamente aos membros da sua comunidade cristã as razões pelas quais o Senhor ainda não veio. A primeira é que Deus não está dependente do tempo, como nós que vivemos na história (“um dia diante do Senhor é como mil anos e mil anos como um dia” – vers. 8); a segunda é que Deus é paciente e pretende prorrogar o tempo da história para dar a todos a oportunidade de acolherem a salvação que Ele oferece (vers. 9). De resto, não é possível definir o momento exato da segunda vinda de Jesus: será algo inesperado e surpreendente, que os crentes devem esperar vigilantes e preparados.

O que é que significa estar vigilante e preparado? São Pedro responde a esta questão na segunda parte do nosso texto (vers. 11-14). Os batizados devem viver uma vida consentânea com a vocação a que foram chamados – isto é, uma vida irrepreensível, “santa” (isto é, ao serviço de Deus), cheia de “piedade”, “sem pecado nem motivo algum de censura”. Essa conduta apressará, na opinião do autor da carta, a segunda vinda do Senhor e, consequentemente, a concretização da promessa desses “novos céus e nova terra onde habitará a justiça”.

Por conseguinte, na esperança da salvação, contribuindo com o projeto de evangelização neste mundo, salvando almas para Nosso Senhor, voltemos para Ele!

Escrito por: Pe Wagner Augusto Portugal