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Mc 1,21-28

21Na cidade de Cafarnaum, num dia de sábado, Jesus entrou na sinagoga e começou a ensinar.

22Todos ficavam admirados com o seu ensinamento, pois ensinava como quem tem autoridade, não como os mestres da Lei.

23Estava então na sinagoga um homem possuído por um espírito mau. Ele gritou: 24“Que queres de nós, Jesus Nazareno? Vieste para nos destruir? Eu sei quem tu és: tu és o Santo de Deus”.

25Jesus o intimou: “Cala-te e sai dele!”

26Então o espírito mau sacudiu o homem com violência, deu um grande grito e saiu. 27E todos ficaram muito espantados e perguntavam uns aos outros: “O que é isto? Um ensinamento novo dado com autoridade: Ele manda até nos espíritos maus, e eles obedecem!”

28aE a fama de Jesus logo se espalhou por toda a parte, em toda a região da Galileia.


28 de janeiro - 4º Domingo do Tempo Comum

Meus queridos irmãos,

 O Livro do Deuteronômio, que surgiu com a reforma religiosa de Josias, em 620 a.C, faz uma recapitulação da Lei de Moisés. Comporta uma espécie de definição do que deve ser um profeta. O profeta deve ser como Moisés, que escuta a palavra de Deus, que coloque suas palavras na boca para transmiti-las, alguém que não fale em nome de Deus o que este não lhe tiver inspirado, nem fale em nome de outros deuses; alguém cujas palavras sejam confirmadas pelos fatos.

Na primeira leitura(cf. Dt 18,15-20) Moisés é o exemplo e o modelo do verdadeiro profeta. Na origem e no centro da vocação de Moisés está Deus. Não foi Moisés que se candidatou à missão profética, por sua iniciativa; não foi Moisés que conquistou, pelas suas ações ou pelas suas qualidades, o “direito” a ser “profeta”. A iniciativa foi de Deus que, de forma gratuita, o escolheu, o chamou e o enviou em missão. Se Moisés foi designado para ser um sinal de Deus, foi porque Deus assim o quis. A consagração do “profeta” resulta de uma ação gratuita de Deus que, de acordo com critérios muitas vezes ilógicos na perspectiva dos homens, escolhe aquela pessoa em concreto, com as suas qualidades e defeitos, para o enviar aos seus irmãos. Em segundo lugar, Moisés disse sempre e testemunhou sempre as palavras que Deus lhe colocou na boca e que lhe ordenou que dissesse. A mensagem transmitida não era a mensagem de Moisés, mas a mensagem de Deus. O verdadeiro profeta não é aquele que transmite uma mensagem pessoal, ou que diz aquilo que os homens gostam de ouvir; o verdadeiro profeta é aquele que, com coragem e frontalidade, testemunha fielmente as propostas de Deus para os homens e para o mundo. As palavras do profeta devem ser cuidadosamente escutadas e acolhidas, pois são palavras de Deus. O próprio Deus pedirá contas a quem fechar os ouvidos e o coração aos desafios que Deus, através do profeta, apresenta ao mundo.

O profeta é apenas um instrumento através do qual Deus age no meio da comunidade humana, porque ele tem que levar a sério a sua missão de levara Palavra de Deus. O testemunho profético não é um passatempo ou um compromisso para as horas vagas; está fora de causa o cruzar os braços e deixar correr. Trata-se de um compromisso que deve ser assumido e vivido com fidelidade absoluta e total empenho.

Caros irmãos,

Voltamos, no Evangelho, na cidade de Cafarnaum (cf. Mc 1,21-28) A missão de Jesus tem um elemento fundamental: a boa-nova, que Jesus nos ensinou e que ele trouxe, alcança todos os espaços da nossa existência, desde o espaço que consagramos para o culto divino – a igreja templo -; até a nossa vida privada e familiar em casa, no trabalho, no lazer, no esporte etc… Seja aonde for a boa-nova de Jesus deve estar presente e, de uma maneira muito particular, o sagrado impregna o dia e a noite de quem se faz discípulo de Jesus, como tudo assim foi consagrado para Jesus

Cafarnaum, a cidade que Jesus é apresentado como visitante, não era uma cidade muito santa. Marcos, o Evangelista que caminha conosco este ano na busca de demonstrar quem é Jesus e quem é o discípulo, anuncia a universalidade dos locais em que Cristo deve ser manifestado e anunciado. Não é o lugar que santifica o discípulo de Cristo e a sua missão. A mente e o coração que voltados para Deus deve ser o fundamental naqueles que se deixam enamorar pelo Cristo. O nosso querer e o nosso agir voltados para Deus, para que todos nós busquemos a santidade de vida e a santidade de estado. A santidade acima de tudo e de todos, como nos anunciou hoje o livro do Deuteronômio, quando é proclamado que somos chamados a ser profetas no meio dos irmãos, ou numa linguagem mais pastoral para os dias atuais, somos chamados a nos transformarmos em evangelizadores. O verdadeiro evangelizador vive em todo e em qualquer lugar, em toda e qualquer hora, em todo e qualquer tempo crendo, adorando, contemplando e servindo o Senhor, quer esteja rezando, quer esteja trabalhando, quer esteja na intimidade de sua casa, quer esteja em logradouros públicos, quer esteja no divertimento.

Caros irmãos,

São Marcos, inicia o seu evangelho, já afirmando a divindade de Cristo, chamando Jesus de Filho de Deus. Todos reconhecem que Jesus é o Messias, o Enviado por Deus para nos salvar. Os primeiros a reconhecerem o senhorio do Cristo foram os próprios profetas, particularmente, João Batista, o precursor. Assim, no trecho do Evangelho que lemos hoje, os espíritos maus também reconhecem a chegada de Jesus, e confessam que Ele é o “Santo de Deus” (Cf. Mc 1, 24) e por isso obedecem ao Salvador (Cf. Mc 1,26-27). Portanto, todos, do alto do céu às profundezas do inferno, tomam conhecimento da chegada de Jesus ao mundo, o vêem presente, o reconhecem como Messias, com “o poder de Deus”. E, o povo, dá o prazo mais simples na fé, admirando que Jesus é o Messias (Cf. Mc 1,22). Quem passar, com o tempo e a maturidade da fé, da admiração ao amor, do espanto (Cf. Mc 1,27) ao seguimento, poderá ser discípulo de Jesus e entrar pela porta estreita que leva ao caminho da vida plena, da vida que nunca se extingue (Cf. Mt 7,14)

Meus caros irmãos,

Dois fatos importantes são salientados pelo Evangelho de hoje: primeiro Jesus mostra seu poder de palavra e em segundo mostra o seu poder sobre a maldade.  O duelo entre Deus e Satanás sempre estará presente, e no final Jesus vencerá Satanás (Cf. Jo 16,33). Na nossa vida todos nós podemos constatar que existe a maldade no mundo. Todos já experimentamos o espírito do mal agindo contra os homens e mulheres que temem a Deus por causa da calúnia, da injúria, da disputa de poder que muitos, infelizmente, travam na vida. Como cristãos gostaríamos, com pio desejo, de que a maldade não existisse. A maldade, para o escritor sagrado, está em Satanás, anjo caído do céu (Cf. Lc 10,18). A doença, embora não seja necessariamente conseqüência da maldade, é sua irmã. Cristo, assim, mostrou poder sobre doenças e maldades e instituiu uma aliança de vida. Jesus veio para que todos pudessem ter vida em abundância (Cf. Jo 10, 10).

Enfrentar uma doença ou enfrentar o demônio era a mesma coisa para os conterrâneos de Jesus. E vencer ao demônio e a doença era a manifestação da chegada do Messias. Assim, na história da salvação, também os Apóstolos lutarão contra os demônios e toda a Igreja terá, no combate constante ao mal, uma de suas maiores preocupações. A Igreja que combaterá a perseguição aos seus filhos, que combaterá as superstições, a magia, a idolatria, a feitiçaria, a opressão, a miséria do corpo e da alma, é a grande missão da Igreja que recebeu de Jesus, a construção do Reino de Deus passa pela destruição do pecado, da morte, do diabo e da doença.

Estimados irmãos,

Jesus traz um ensinamento novo. Jesus não pretende abolir as leis. O Reino de Jesus é uma nova maneira de ver o mundo, a história e de viver este reino entre os homens e as mulheres. A novidade de Jesus é o relacionamento trinitário que nos é revelado. A novidade está no amor a Deus. Mas, mais do que amar a Deus sob todas coisas somos convidados a inovar amando-nos mutuamente. Amor que é perdão dos pecados. Amor que é acolhida dos irmãos e irmãs, particularmente do diferente. Amor que é boa nova, acolhida, misericórdia, reparação, compaixão, comum união de vida e de partilha.

A maldade tem por conseqüência a morte. Entretanto, pelos homens e as mulheres, Jesus venceu a morte e tem em suas mãos as chaves da morte e do inferno (Cf. Ap. 1,18). Jesus é o Santo de Deus (Cf. Mc 1,24), é o escolhido, que procede de Deus e tem poderes divinos. Jesus é Deus entre nós e nos conduz pelo caminho certo que leva à presença e à comunhão com Deus já na vida atual. Esse viver e atuar na presença de Deus é o Reino dos Céus pregado por Jesus.

O povo judeu se admirava com Jesus. A admiração é a mãe da sabedoria. A admiração gera fé, embora a fé não se reduza à admiração.

Caros irmãos,

Na sua catequese São Marcos apresenta a proposta de Deus que se torna realidade viva e atuante em Jesus. Ele é o Messias libertador que, com a sua vida, com a sua palavra, com os seus gestos, com as suas ações, vem propor aos homens um projeto de liberdade e de vida. Ao egoísmo, Ele contrapõe a doação e a partilha; ao orgulho e à autossuficiência, Ele contrapõe o serviço simples e humilde a Deus e aos irmãos; à exclusão, Ele propõe a tolerância e a misericórdia; à injustiça, ao ódio, à violência, Ele contrapõe o amor sem limites; ao medo, Ele contrapõe a liberdade; à morte, Ele contrapõe a vida. O projeto de Deus, apresentado e oferecido aos homens nas palavras e ações de Jesus, é verdadeiramente um projeto transformador, capaz de renovar o mundo e de construir, desde já, uma nova terra de felicidade e de paz. É essa a Boa Nova que deve chegar a todos os homens e mulheres da terra.

Os discípulos de Jesus são as testemunhas da sua proposta libertadora. Eles têm de continuar a missão de Jesus e de assumir a mesma luta de Jesus contra os “demónios” que roubam a vida e a liberdade do homem, que introduzem no mundo dinâmicas criadoras de sofrimento e de morte.

Neste domingo somos chamados a ser discípulo do Senhor. Por isso ser discípulo de Jesus é percorrer o mesmo caminho que Ele percorreu e lutar, se necessário até ao dom total da vida, por um mundo mais humano, mais livre, mais solidário, mais justo, mais fraterno.

Os seguidores de Jesus não podem ficar de braços cruzados, a olhar para o céu, enquanto o mundo é construído e dirigido por aqueles que propõem uma lógica de egoísmo e de morte; mas têm a grave responsabilidade de lutar, objetivamente, contra tudo aquilo que rouba a vida e a liberdade ao homem.

Irmãos e Irmãs,

São Paulo explica na sua carta de hoje aos Coríntios as vantagens do celibato, na perspectiva da escatologia (cf. 1Cor 7,32-35).  É melhor e aprazível sempre adotar um estado de vida que nos deixa livres. O celibato como entrega total a Deus, a Igreja e aos irmãos que precisam de nossa ação. Tudo isso para que, a título de mensagem para a missa de hoje, a Igreja é chamada a apresentar ao mundo a Palavra de Deus e o anúncio de seu Reino.

O Apóstolo das gentes ressalta que as realidades terrenas são passageiras e efémeras e não devem, em nenhum caso, ser absolutizadas. Não se trata de propor uma evasão do mundo e uma espiritualidade descarnada, insensível, alheia ao amor, à partilha, à ternura; mas trata-se de avisar que as realidades desta terra não podem ser o objetivo final e único da vida do homem. Esta reflexão convida-nos a repensarmos as nossas prioridades, e a não ancorarmos a nossa vida em realidades transitórias.

A virgindade consagrada, por amor do Reino, nem sempre é um valor compreendido, à luz dos valores da nossa sociedade. São Paulo, contudo, sublinha o valor da virgindade como valor autêntico, pois anuncia o mundo novo que há-de vir e disponibiliza para o serviço de Deus e dos irmãos.

O celibato é sinal de desprendimento, de doação, de disponibilidade e deve ser positivamente valorizada. Aqueles que são chamados a viver dessa forma não são gente estéril e infeliz, alheia às coisas bonitas da vida, mas são pessoas generosas, que renunciaram a um bem (o matrimónio) em vista da sua entrega a Deus e aos outros.

Como confirmação dessa mensagem, deve também demonstrar, em sinais e obras, que o poder de Deus supera o mal: no empenho pela justiça e no alívio do sofrimento, no saneamento da sociedade e na cura do meio ambiente adoentado. Palavra e sinal, eis a missão profética da Igreja nos dias atuais. Que Deus nos ajude neste bom propósito!

Escrito por: Padre Wagner Augusto Portugal